Transtorno de múltiplas identidades existe? O que a ciência sabe

O transtorno dissociativo de identidade (TDI) é uma condição psiquiátrica em que duas ou mais identidades distintas alternam o controle da mesma pessoa. Os episódios podem incluir “acordar” em outro bairro sem lembrança do percurso ou encontrar objetos que não se recorda ter adquirido.

Descrito no DSM‑5, o TDI apresenta lacunas de memória entre as identidades, chamadas de alters. “Algo imprescindível nesse quadro é a existência de uma lacuna de memória, onde uma identidade não lembra da outra”, explica o psiquiatra Daniel Oliva, do Espaço Einstein de Bem‑estar e Saúde Mental, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Na prática clínica, a manifestação mais frequente é a forma não possessiva, em que as mudanças são discretas e internas. “Geralmente são mais egodistônicas, ou seja, a pessoa não quer ter essas identidades e, com isso, elas aparecem de maneira tímida”, relata Oliva. Na forma possessiva, há egossintonia, com a identidade emergente sendo mais exuberante e socialmente visível.

Os pacientes costumam relatar despersonalização, como se observassem a própria vida de fora, além de ouvir vozes internas que não são alucinações psicóticas. “É comum o relato de vozes internas, que são fluxos de pensamento independentes das outras identidades”, comenta a psicóloga Lidiane de Souza, professora da Universidade São Judas, em São Paulo.

Diagnosticar o TDI é complexo, pois pode ser confundido com esquizofrenia, transtorno de personalidade borderline, epilepsia do lobo temporal ou transtorno factício. O subdiagnóstico é frequente, muitas vezes devido à vergonha do paciente e ao esforço para ocultar suas experiências internas.

A literatura científica aponta forte associação entre TDI e traumas graves e repetidos na infância. Uma revisão publicada em 2025 na *Frontiers in Psychiatry* indica que a maioria dos pacientes relata sintomas iniciais entre cinco e oito anos de idade. “O trauma não é apenas um fator de risco, ele é a espinha dorsal do TDI”, afirma Souza, destacando abusos físicos, sexuais, emocionais e ambientes cronicamente aterrorizantes como gatilhos.

Um estudo de 2025 na *Psychiatry Research*, com participantes da Holanda e da Suíça, encontrou níveis significativamente maiores de sintomas dissociativos, depressão, ansiedade, experiências traumáticas e distúrbios do sono em indivíduos com TDI comparados a controles. “Também existem componentes sociais, como influência cultural e sugestionabilidade, mas o trauma permanece central”, reforça Oliva.

Os lapsos de memória são um dos sinais mais incapacitantes: pacientes podem perder horas sem lembrança, encontrar-se em locais desconhecidos ou possuir objetos que não reconhecem. Essa descontinuidade afeta relacionamentos, trabalho e vida social, gerando conflitos e isolamento quando não há diagnóstico e psicoeducação adequados, segundo Lidiane de Souza.

O tratamento do TDI é prolongado e centrado em psicoterapia especializada em trauma, como terapia fase‑orientada, terapia cognitivo‑comportamental adaptada, terapia de aceitação e compromisso, psicoterapia analítica funcional e EMDR. A prioridade inicial é estabilizar sintomas e criar segurança emocional. Depois, busca‑se integrar as identidades em um processo que a psicóloga denomina “multiplicidade funcional”. Não há medicação específica, embora antidepressivos ou antipsicóticos possam ser usados para comorbidades. A revisão da *Frontiers in Psychiatry* ressalta a escassez de ensaios clínicos robustos, indicando que a evidência ainda é limitada. “Essas pessoas são mais propensas a serem vítimas de novos abusos do que perpetradoras”, conclui Souza.

Fonte: Terra Saúde

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