Postagens fitness nas redes sociais, muitas vezes apresentadas como incentivo a hábitos saudáveis, podem provocar o efeito contrário e afetar a saúde mental dos usuários. Uma meta-análise conduzida pela Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, associou esse tipo de conteúdo ao aumento de comparações sociais, piora da autoestima, insatisfação com o corpo e maior risco de comportamentos prejudiciais.
O estudo reuniu 26 pesquisas publicadas entre 2015 e 2023, com mais de 6 mil participantes. A maioria era formada por mulheres jovens, com média de idade próxima de 22 anos. Os trabalhos avaliaram os efeitos da exposição a conteúdos fitness em plataformas como Instagram, TikTok, Tumblr e Pinterest.
Os pesquisadores analisaram publicações conhecidas como “fitspiration”, termo usado para definir conteúdos que combinam imagens de corpos magros, musculosos ou tonificados com mensagens motivacionais sobre alimentação, exercícios, autocuidado e disciplina.
Embora a mensagem pareça positiva à primeira vista, os autores afirmam que essas postagens frequentemente reforçam padrões físicos difíceis de alcançar. Com isso, usuários expostos repetidamente a imagens idealizadas podem passar a comparar o próprio corpo, a rotina e os hábitos com modelos considerados superiores.
A meta-análise aponta que um dos principais efeitos desse tipo de conteúdo é o aumento das chamadas comparações ascendentes, quando a pessoa se compara com alguém visto como mais atraente, disciplinado ou bem-sucedido. Nas redes sociais, esse processo tende a ser intensificado porque as imagens publicadas são cuidadosamente selecionadas e muitas vezes não refletem a realidade.
Segundo os pesquisadores, a exposição recorrente a esses padrões pode reduzir a autoestima e a satisfação com a aparência. Parte dos usuários passa a interpretar corpos idealizados como referência de sucesso, beleza e disciplina. Quando não conseguem atingir esses modelos, surgem sentimentos de frustração, inadequação e baixa autoestima.
O estudo também alerta que publicações fitness podem estimular comportamentos de risco quando associam alimentação e exercícios exclusivamente à busca por um corpo ideal. Entre os exemplos citados estão dietas rígidas, restrição calórica, monitoramento obsessivo da alimentação e treinos motivados apenas por metas estéticas.
A pesquisa relaciona ainda o consumo frequente desse tipo de conteúdo ao aumento de emoções negativas, como ansiedade, vergonha, inveja e sentimentos depressivos, além da redução da sensação de felicidade e satisfação pessoal.
Especialistas ouvidos pelo G1 afirmam que o problema não está na prática de atividade física nem na valorização da saúde, mas na forma como muitos conteúdos reduzem o corpo a uma vitrine estética. A comparação permanente pode fazer com que a pessoa deixe de perceber o próprio progresso e passe a medir seu valor por uma régua externa, muitas vezes artificial.
A meta-análise também destaca que o chamado fitspiration pode ter relação com antigas comunidades digitais ligadas a transtornos alimentares. Com o avanço das redes sociais, esse tipo de conteúdo ganhou aparência motivacional e passou a circular amplamente, associado a marcas, influenciadores, produtos, programas alimentares e treinos.
Os pesquisadores reconhecem limitações no estudo, já que a maioria das pesquisas analisadas foi realizada com mulheres jovens de países desenvolvidos. Ainda assim, afirmam que os impactos negativos apareceram mesmo após exposições relativamente breves, o que gera preocupação diante do volume de publicações consumidas diariamente nas redes.
Para reduzir riscos, especialistas recomendam diferenciar conteúdos voltados à saúde daqueles centrados apenas em transformação estética. Publicações mais saudáveis tendem a abordar sono, recuperação, funcionalidade, bem-estar, saúde mental e consistência. Já conteúdos baseados apenas em aparência podem reforçar uma relação ansiosa e rígida com o próprio corpo.
A orientação é fazer uma curadoria ativa das redes sociais, evitando perfis que provoquem comparação constante, culpa ou insatisfação. Também é importante observar sinais de que a busca por saúde está se transformando em sofrimento, compulsão ou rejeição da própria imagem.
Fonte: G1 Saúde
