Pesquisadores da Universidade de Tours, na França, e da Virginia Tech, nos Estados Unidos, demonstraram que o mosquito Aedes aegypti pode aprender a ignorar o cheiro do DEET, princípio ativo presente em muitos repelentes, ao associá‑lo a alimento. O estudo foi publicado em 28 de maio no Journal of Experimental Biology.
O experimento foi realizado em laboratório com fêmeas da espécie, as únicas que picam para obter sangue e produzir ovos. Cada inseto recebeu uma refeição de sangue aquecido por 20 segundos; nos últimos 10 segundos, o odor de DEET foi liberado. O procedimento foi repetido quatro vezes para que os mosquitos associassem o cheiro ao alimento.
Na fase seguinte, apenas o odor de DEET foi apresentado, sem oferta de sangue. Mais de 60% dos mosquitos que passaram pelo treinamento tentaram picar, mesmo na ausência de alimento, enquanto nos grupos de controle a reação variou entre 13% e 23%.
Em teste de escolha, os insetos foram expostos a duas mãos, uma tratada com DEET e outra sem o produto. Os mosquitos treinados preferiram pousar e tentar picar a mão com repelente; os não treinados continuaram evitando o odor.
Para confirmar que o aprendizado não dependia exclusivamente do sangue, os pesquisadores repetiram o experimento usando solução de açúcar como recompensa. O padrão de comportamento foi idêntico, indicando que a associação odor‑recompensa pode ocorrer com diferentes fontes alimentares.
O DEET (N,N‑dietil‑meta‑toluamida) é o princípio ativo mais utilizado em repelentes. Ele não mata os insetos, mas dificulta que encontrem e piquem as pessoas. Os autores ressaltam que o mosquito não nasce programado para responder sempre da mesma forma ao DEET; a resposta pode ser modificada quando o cheiro é repetidamente associado a uma recompensa.
Quando a concentração do repelente diminui, ainda há odor suficiente para ser percebido, mas pode não ser forte o bastante para afastar o inseto. Nessa situação, se o mosquito conseguir se alimentar, pode passar a relacionar o cheiro ao alimento, reduzindo a eficácia do produto.
Apesar da descoberta, os cientistas reforçam que o DEET continua sendo o padrão de referência entre os repelentes e permanece recomendado para proteger contra dengue, zika, chikungunya e febre amarela. O trabalho amplia o conhecimento sobre o comportamento do Aedes aegypti e pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de proteção mais eficazes no futuro.
Fonte: Metrópoles Saúde
