Mesmo pesticidas considerados “seguros” podem aumentar risco de câncer

Um estudo científico conduzido por pesquisadores franceses e peruanos revelou forte associação entre a exposição a pesticidas agrícolas no meio ambiente e o risco de desenvolvimento de câncer. Os resultados foram divulgados nesta quarta-feira (22) e combinam dados ambientais, registro nacional de câncer e análises biológicas para esclarecer o papel desses produtos na carcinogênese.

Os pesticidas estão presentes em alimentos, água e solo, geralmente como misturas complexas. Investigações anteriores focavam em substâncias isoladas e em modelos experimentais distantes das condições reais de exposição, dificultando a avaliação precisa dos efeitos na saúde humana. O novo trabalho adota uma abordagem integrativa que considera a complexidade das exposições vivenciadas pelas populações.

A pesquisa mapeou, em todo o território peruano, as áreas mais contaminadas por pesticidas, incorporando 31 substâncias químicas usadas na agricultura – nenhuma classificada como carcinógeno humano pela Organização Mundial da Saúde. Ao cruzar esses mapas com informações geográficas de mais de 150 mil pacientes diagnosticados entre 2007 e 2020, os autores identificaram regiões onde o risco de desenvolver câncer foi, em média, 150% maior.

Os achados apontam que diferentes tipos de tumor, embora afetem órgãos distintos, compartilham vulnerabilidades biológicas ligadas à sua origem celular, que podem ser intensificadas pela presença de pesticidas. O fígado, principal órgão de metabolismo químico, mostrou-se particularmente sensível. Análises moleculares indicaram que os produtos químicos interrompem processos que mantêm a identidade e a função celular, gerando alterações precoces, cumulativas e silenciosas que aumentam a suscetibilidade a infecções, inflamações ou outros estressores ambientais.

Esses resultados questionam as avaliações toxicológicas tradicionais, que estabelecem limites de segurança com base em substâncias isoladas. Eles ressaltam a necessidade de considerar misturas de pesticidas, exposição ambiental e contextos socioecológicos reais, além de alertar que eventos climáticos extremos, como o El Niño, podem ampliar a dispersão desses compostos e agravar o risco à saúde, demandando revisão das políticas de avaliação e prevenção.

Além do Peru, os pesquisadores inserem o estudo em um debate global sobre saúde planetária, destacando como mudanças ambientais, manejo insustentável da terra, extremos climáticos e desigualdades sociais podem convergir e afetar populações vulneráveis, sobretudo comunidades indígenas e camponesas.

Os autores planejam dar continuidade ao trabalho para aprofundar a compreensão dos mecanismos biológicos identificados e fortalecer ferramentas de prevenção, contribuindo para políticas de saúde pública mais equitativas e eficazes.

Fonte: Terra Saúde

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