Pesquisadores descobriram que o estresse psicológico agudo pode mudar rapidamente a forma como o sangue forma coágulos, aumentando a propensão à coagulação. O estudo, conduzido pelo professor Lewis Fall, da Universidade de South Wales, e publicado na plataforma The Conversation Brasil, demonstra que a ansiedade não se limita ao campo mental.
Embora muitas vezes seja tratada como coisa da cabeça, a ansiedade desencadeia uma cascata bioquímica que percorre a corrente sanguínea. Em minutos, o estresse eleva a produção de radicais livres, moléculas altamente reativas que alteram a coagulação.
Para investigar essa relação, a equipe avaliou oito voluntários saudáveis, homens entre 18 e 30 anos. Cada participante compareceu ao laboratório duas vezes, com intervalo de uma semana, em sessões distintas: uma de repouso e outra de estresse induzido.
Na sessão de estresse, foi aplicado o Teste de Estresse Social de Trier, considerado padrão-ouro para provocar estresse psicológico agudo. Os sujeitos tiveram cinco minutos para preparar um discurso, apresentá-lo a uma câmera e a um painel de juízes, e, em seguida, realizar um cálculo mental regressivo a partir de 2003, contando de 17 em 17.
Amostras de sangue foram coletadas imediatamente antes e depois de cada sessão. Os radicais livres foram medidos por espectroscopia de ressonância paramagnética eletrônica, enquanto a estrutura dos coágulos foi analisada ao microscópio.
Durante o período de repouso, a composição química do sangue permaneceu estável. Já após o teste de estresse, observou-se simultaneamente um aumento nos níveis de radicais livres e uma transformação completa na arquitetura dos coágulos em formação.
O marcador de estresse oxidativo, radical ascorbato, apresentou elevação significativa, indicando que o estresse emocional intensificou o estresse oxidativo corporal. Paralelamente, os coágulos formados tornaram-se maiores, mais densos e com rede de fibrina mais compacta.
A análise também revelou ativação da via intrínseca do sistema de coagulação, sem alterações na viscosidade ou espessura do sangue. Esse achado questiona a hipótese de que o estresse aumente o risco cardiovascular apenas por hemoconcentração.
Os resultados sugerem que períodos breves de estresse psicológico podem desencadear mudanças biológicas rápidas, elevando o potencial de coagulação. Contudo, o estudo não indica que uma apresentação estressante ou um dia difícil causem imediatamente um infarto ou AVC, já que as doenças cardiovasculares são multifatoriais.
A pesquisa contou apenas com oito homens jovens e saudáveis, o que limita a generalização dos achados. Estudos com amostras maiores, incluindo mulheres, idosos e pacientes com doenças cardíacas, são necessários para confirmar a aplicabilidade dos resultados.
Os autores apontam que futuras investigações poderiam explorar intervenções nas vias bioquímicas identificadas, buscando reduzir o risco cardiovascular associado ao estresse psicológico.
Fonte: Metrópoles Saúde
