Em setembro de 1987, a notícia sobre a estranha cápsula com cristais azul‑brilhante encontrada no ferro‑velho de Devair Alves Ferreira se espalhou por Goiânia (GO). Vizinhos, familiares e amigos foram ao local para observar o objeto com os próprios olhos.
A cápsula foi aberta e os cristais foram manipulados por várias pessoas, que levaram amostras para casa a fim de mostrá‑las a seus familiares.
Ninguém sabia que os cristais continham césio‑137, um isótopo altamente radioativo que desencadearia o maior acidente radiológico da história do Brasil.
Ferreira adquiriu a cápsula de dois catadores que a encontraram dias antes em uma clínica abandonada. Seu irmão, Odesson Alves Ferreira, recomendou que a descartasse, acreditando ser “inútil”, mas Devair ficou fascinado e chegou a imaginar transformá‑la em pedra preciosa para um anel.
Uma semana depois, dezenas de pessoas começaram a apresentar sintomas de uma doença misteriosa.
A esposa de Devair, Maria Gabriela Ferreira, levou o cilindro à Vigilância Sanitária. O objeto ficou abandonado em uma cadeira no pátio até ser examinado pelo físico Walter Mendes Ferreira, que registrou leituras de radiação tão altas que inicialmente se suspeitou de defeito no equipamento, mas um segundo detector confirmou o nível alarmante.
Até então, 56 membros da família haviam sido expostos, e ele comparou a situação ao desastre de Chernobyl, temendo a morte iminente.
A primeira vítima fatal foi Leide das Neves Ferreira, sobrinha de Odesson, com apenas seis anos, que brincou com um fragmento contaminado e ingeriu um ovo ainda radioativo. A mãe de Leide, Maria Gabriela, morreu cerca de um mês depois. Dois jovens que trabalhavam no ferro‑velho também faleceram. Devair morreu em 1994 e Ivo Ferreira, pai de Leide, em 2003.
Mais de 100 mil moradores de Goiânia foram convocados ao Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira para descontaminação, lavagem de roupas e ingestão de líquidos abundantes.
Odesson, embora declarado livre de contaminação, foi internado, mantido em quarentena e sofreu isolamento social, inclusive tendo o banheiro de um bar demolido por risco de contaminação. Anos depois, tornou‑se presidente da Associação das Vítimas do Césio‑137, lutando por indenizações e por mudanças nas normas de vigilância de materiais radioativos. Hoje, aos 70 anos, vive em uma fazenda a 220 km de Goiânia, relata estar saudável e em paz consigo mesmo.
Fonte: Terra Saúde
