‘Comecei a usar cetamina aos 14 anos e aos 22 precisei de fraldas’

Megan Harmes tinha 14 anos quando experimentou cetamina pela primeira vez. Dez anos depois, aos 24, ela tenta reconstruir a vida com o apoio de um programa de reabilitação, após a droga causar danos à bexiga que a obrigam a usar absorventes para incontinência urinária.

A Kaleidoscope, entidade que atende pessoas com dependência de drogas, relata que o número de encaminhamentos para desintoxicação e reabilitação disparou nos últimos cinco anos. Em 2021, apenas duas pessoas foram encaminhadas. Neste ano, já são 112, a maioria entre 18 e 24 anos.

A cetamina é utilizada na medicina como anestésico dissociativo e também na veterinária. No Reino Unido, foi reclassificada em 2014 como droga da classe B, tornando seu consumo, porte, fabricação e venda ilegais fora das condições autorizadas. No Brasil, a cetamina e a escetamina são controladas, com uso restrito a estabelecimentos de saúde.

Em 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o spray nasal de escetamina, associado a antidepressivo oral, para tratar depressão resistente, mas a autorização vale apenas para essa apresentação e indicações específicas. A legislação brasileira prevê sanções para posse, fornecimento e comércio dessas substâncias.

Uma pesquisa da Universidade do Sul do País de Gales, no Reino Unido, investiga as necessidades de jovens usuários de cetamina. O estudo aponta que os danos provocados pelo uso contínuo e cada vez mais intenso aparecem mais rapidamente que os associados ao álcool ou a drogas da classe A, que são consideradas de alto risco.

Para Harmes, o consumo se intensificou durante o confinamento da pandemia, quando o preço da cetamina despencou. Ela relata que, no período mais crítico, usava a droga “o dia inteiro, todos os dias”, alegando que ajudava a amenizar sintomas de TDAH e de transtorno de personalidade borderline. O uso constante fez com que perdesse a vaga de aprendiz de engenharia aeronáutica e, posteriormente, trabalhasse em turnos noturnos para permanecer acordada.

Nos últimos dois anos, a jovem sente dores intensas na coluna e na bexiga, o que a obrigou a usar absorventes desde os 22 anos. “Ter que usar absorventes ou fraldas aos 22 acaba com a dignidade de qualquer pessoa”, afirma. Ela está em reabilitação há pouco mais de quatro semanas e já percebe ganho de peso e melhora física, embora ainda não conheça a gravidade dos danos à bexiga.

Jo Moore, responsável pela clínica de reabilitação Birchwood, da Kaleidoscope, destaca que, há cinco anos, o centro recebeu apenas um encaminhamento para internação por cetamina. “Desde janeiro deste ano, já atendemos 112 pessoas”, diz, acrescentando que metade dos pacientes recebe tratamento por problemas relacionados ao consumo da droga, que é barata e fácil de conseguir.

Pesquisadores apontam que o consumo frequente de cetamina pode causar problemas de memória, dores crônicas, lesões na bexiga e até insuficiência renal, exigindo que os serviços de tratamento se adaptem rapidamente a pacientes cada vez mais jovens e com necessidades médicas complexas. O grupo de jovens usuários apresenta características diferentes das de dependentes de álcool e outras drogas, o que dificulta a definição de protocolos de tratamento adequados.

Fonte: BBC News Brasil

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