Cérebro preenche lacunas e cria memórias para manter narrativa coerente

A memória humana não funciona como uma câmera fotográfica nem como uma gravação em vídeo capaz de registrar acontecimentos com precisão absoluta. O cérebro armazena e recupera as experiências de forma fragmentada, recorrendo a mecanismos reconstrutivos que reescrevem o que foi vivido.

Na fase de consolidação, áreas específicas do córtex cerebral guardam separadamente informações visuais, sonoras, olfativas e emocionais. Quando a pessoa tenta recordar um evento, o hipocampo atua como maestro, reativando a rede neural e remontando o cenário em tempo real.

Por ser um sistema flexível e plástico, esse processo deixa brechas que podem ser alteradas inconscientemente. Diante de detalhes esquecidos ou ausentes, a mente tende a preencher lacunas automaticamente. O córtex pré-frontal e o hipocampo inserem informações plausíveis que façam sentido no contexto.

Como explica o neurologista e neuroimunologista Thiago Taya, do Hospital Brasília Águas Claras, esse mecanismo ocorre de forma involuntária.

“Nosso cérebro não se mantém em situações de incompletude de informações, então ele tenta preencher automaticamente com coisas que mais fazem sentido. Como esse processo é inconsciente, na maioria das vezes não percebemos que a memória foi modificada por comodidade e pela fluidez natural”, afirma.

Quando uma narrativa fictícia é repetida ou associada a forte carga emocional, o cérebro passa a tratá-la como fato verídico devido à intensidade da ativação sensorial. O neurologista destaca que o cérebro possui um mecanismo de monitoramento de fonte para diferenciar acontecimentos reais de pensamentos, mas essa avaliação pode falhar.

“Se as memórias falsas forem repetidas e sentidas de maneira vívida, podem começar a enganar o julgamento cerebral. O cérebro passa a julgar como real pela intensidade da experiência e não mais pela etiqueta de ter acontecido ou não”, pontua Taya.

A exposição contínua a fotos antigas, relatos de terceiros ou perguntas sugestivas também é capaz de alterar a percepção do passado. Na infância, momento em que as estruturas cerebrais encarregadas de contextualizar episódios ainda estão em desenvolvimento, a vulnerabilidade a distorções torna-se ainda maior.

Segundo a psicóloga Denise Milk, a incorporação de elementos externos não significa que a pessoa esteja mentindo de má-fé.

“A nossa memória é reconstrutiva. Cada vez que lembramos de alguma coisa, nosso cérebro reorganiza informações, emoções e interpretações. Uma lembrança pode ser emocionalmente muito verdadeira para quem a experimenta, sem necessariamente corresponder à realidade dos fatos”, ressalta Denise.

Essa plasticidade do sistema nervoso desempenha um papel adaptativo fundamental para a sobrevivência e o aprendizado humano. Em vez de operar como um arquivo estático, o cérebro prioriza a identificação de padrões e a resolução de problemas para antecipar cenários e orientar tomadas de decisão.

De acordo com a psicóloga, as distorções são consequências colaterais de uma estrutura moldada para atribuir significado às vivências.

“A principal função da memória não é produzir um registro perfeito do passado, mas nos ajudar a aprender com as experiências e orientar nossas decisões no presente e no futuro. As falsas memórias surgem como consequência de um sistema que prioriza significado, associação e adaptação”, conclui.

Fonte: Metrópoles Saúde

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