Canetas emagrecedoras: interrupção de uso pode provocar “efeito ioiô”

Medicamentos à base de GLP‑1, como Wegovy e Mounjaro, têm sido apontados como grandes avanços no tratamento da obesidade, pois imitam hormônios que aumentam a saciedade e reduzem a fome. O princípio ativo do Mounjaro, tirzepatida, também age sobre outro hormônio ligado ao apetite e à glicemia.

Entretanto, estudos recentes mostram que, ao interromper o uso desses fármacos, muitas pessoas recuperam parte significativa do peso perdido. Uma pesquisa constatou que, após a descontinuação, o peso e indicadores de saúde cardíaca tendem a voltar aos níveis pré‑tratamento. Resultados semelhantes foram observados com semaglutida e tirzepatida.

Do ponto de vista biológico, os medicamentos reduzem o “ruído alimentar”, ou seja, os pensamentos e impulsos que levam ao consumo excessivo. Quando o tratamento é cessado, esse efeito desaparece, a fome retorna e o risco de ganho de peso aumenta se a ingestão calórica superar o gasto energético.

Esse cenário pode gerar um novo tipo de ciclo ioiô, agora mediado por prescrições. Pacientes iniciam o tratamento, perdem peso e melhoram a saúde, mas podem interromper o uso por custo, efeitos colaterais, escassez ou critérios de elegibilidade. Nos meses seguintes, o apetite volta, os hábitos alimentares mudam e o peso recupera, levando à retomada da medicação.

A situação não invalida a eficácia dos fármacos. Eles permanecem clinicamente valiosos. O problema reside na disparidade entre a expectativa de solução permanente e a realidade da obesidade como condição crônica, influenciada por fatores biológicos, comportamentais, ambientais e sociais. O controle sustentável costuma exigir apoio de longo prazo.

Para os profissionais de saúde, o tratamento com GLP‑1 deve ser visto como uma janela de oportunidade. A redução da fome pode facilitar a adoção de hábitos saudáveis, como refeições regulares, prática de atividade física e estratégias para lidar com desejos alimentares. O medicamento não deve ser visto como a única solução.

A mudança comportamental sustentável continua sendo essencial. Além do apetite, influenciam hábitos alimentares, nível de atividade física, saúde mental, qualidade do sono, uso de outros medicamentos, renda, responsabilidades de cuidado, condições de trabalho e acesso a alimentos saudáveis.

Mesmo com o apoio a longo prazo, a manutenção do peso permanece difícil para muitas pessoas. Quando os pacientes desenvolvem rotinas que conseguem manter, algumas dessas mudanças podem perdurar após o término do programa, embora a estabilidade do peso ainda seja um desafio.

A crescente demanda por GLP‑1 tem levado a um número cada vez maior de usuários que podem precisar de tratamento prolongado, sobretudo aqueles com obesidade grave ou com comorbidades. Órgãos reguladores, como os do Reino Unido, alertam contra o uso desses fármacos para fins estéticos em indivíduos que não atendem aos critérios médicos.

A possibilidade de interrupção do tratamento e a subsequente recuperação de peso podem pressionar alguns pacientes a continuar a medicação indefinidamente, enquanto outros podem entrar em ciclos repetidos de uso, dependendo de fatores como pagamento próprio, elegibilidade nos sistemas públicos, disponibilidade ou mudanças pessoais.

Esse padrão cria um novo desafio: em vez de alternar entre dietas, alguns pacientes podem alternar entre prescrições. Embora os medicamentos seja geralmente seguros quando prescritos e monitorados, seu uso em larga escala ainda é recente, exigindo atenção a efeitos colaterais, uso indevido, produtos falsificados e adequação aos critérios de elegibilidade.

A questão central para a medicina da obesidade pode passar a ser menos sobre a quantidade de peso perdida durante o uso dos fármacos e mais sobre o tipo de apoio necessário quando o tratamento é interrompido. Se o sucesso a longo prazo depender apenas da supressão do apetite por meio de medicamentos, o ciclo de perda e ganho de peso pode simplesmente assumir uma nova forma, vinculada tanto à prescrição quanto ao plano alimentar.

Oliver Hamer, postdoctoral research fellow da Edge Hill University, esclarece que não presta consultoria, não possui ações nem recebe financiamento de empresas que possam se beneficiar com a publicação e não revelou vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Fonte: Terra Saúde

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