Quando muitas pessoas pensam em um paciente típico com câncer de pulmão, costumam imaginar um homem idoso que fuma. O perfil da doença mudou: nos últimos 15 anos, mais mulheres, pessoas que nunca fumaram e jovens têm sido diagnosticados com câncer de pulmão.
O câncer de pulmão é a principal causa de morte por câncer entre as mulheres, superando o câncer de mama, de ovário e colorretal. Segundo a American Lung Association, as taxas da doença entre as mulheres aumentaram 79% nos últimos 44 anos, enquanto caíram 43% entre os homens. Pela primeira vez, há mais mulheres jovens diagnosticadas com a doença do que homens.
A notícia sobre o diagnóstico de câncer de pulmão do Papa Leão XIV, anunciada em 13 de outubro de 2026, reacendeu o debate sobre o crescimento das taxas entre pessoas que nunca fumaram, já que o pontífice não é fumante.
As possíveis causas incluem exposições ambientais e fatores genéticos. Reconhecer esses fatores — independentemente do histórico de tabagismo — é essencial para a realização de exames de rastreamento e tratamento oportunos e adequados.
Quando o tumor é detectado nos estágios iniciais, como no caso do papa, ele pode ser tratado com cirurgia e pode ter cura tanto em fumantes quanto em não fumantes. O desafio reside no fato de que pessoas que nunca fumaram não estão incluídas nas diretrizes atuais de rastreamento, o que faz com que os tumores sejam descobertos com maior probabilidade por acaso.
Como oncologista torácico, tenho atendido muitas mulheres jovens que nunca fumaram e chegam à clínica com um diagnóstico de câncer de pulmão. Esse cenário costuma ser inesperado para as pacientes e pode levar a atrasos no diagnóstico.
Pesquisadores vêm descrevendo essa tendência de aumento entre mulheres em diferentes partes do mundo e começam a entender as razões por trás do crescimento dos casos.
A primeira explicação é que muitas mulheres começaram a fumar mais tarde do que os homens, atrasando o pico dos diagnósticos relacionados ao tabagismo. Além disso, o uso de cigarros com filtro, mais comum entre as mulheres, está associado ao aumento do risco de adenocarcinoma, pois o filtro pode direcionar a fumaça para as partes externas dos pulmões. Estudos sugerem que as mulheres são mais suscetíveis aos efeitos cancerígenos da fumaça e do fumo passivo, podendo desenvolver câncer após menos anos de tabagismo.
No entanto, a maioria das pessoas diagnosticadas hoje com câncer de pulmão não é fumante ativo. Aproximadamente 20% das mulheres com câncer de pulmão nunca fumaram — uma parcela maior do que a observada entre os homens com a mesma condição.
Além do tabagismo e do fumo passivo, existem diversos outros fatores de risco, como histórico familiar de câncer, exposição ao amianto, ao radônio e à poluição do ar. A exposição a substâncias cancerígenas no ambiente de trabalho, como arsênico, berílio, cádmio, sílica e níquel, continua sendo uma preocupação em várias regiões. O risco potencial associado ao cigarro eletrônico e à fumaça da maconha ainda é tema de estudo.
Recentemente, pesquisadores têm descoberto que a genética pode desempenhar um papel no risco de câncer de pulmão em alguns pacientes com histórico familiar da doença. Estudos com famílias ajudam a identificar possíveis genes de suscetibilidade e fatores de risco ambientais. Assim como o BRCA1 e o BRCA2 no câncer de mama, alterações em genes que promovem ou protegem contra o desenvolvimento de tumores podem contribuir para o câncer de pulmão, embora ainda não tenham sido identificadas mutações específicas de predisposição.
O estudo das predisposições genéticas pode, no futuro, levar à descoberta de novos biomarcadores para detecção precoce em grupos de alto risco.
Em 2021, a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos atualizou suas diretrizes de rastreamento para incluir pacientes mais jovens com histórico de tabagismo mais curto. Atualmente, o rastreamento do câncer de pulmão é recomendado para adultos entre 50 e 80 anos que fumaram pelo menos um maço por dia durante 20 anos, fumantes atuais e ex‑fumantes que interromperam o hábito nos últimos 15 anos. Mulheres com risco de câncer de pulmão podem conversar com seus médicos sobre a indicação de uma tomografia computadorizada de baixa dose para rastreamento.
Apesar de mais de 70% das mulheres elegíveis realizarem o rastreamento do câncer de mama, menos de 6% das fumantes elegíveis realizam o rastreamento do câncer de pulmão. As novas diretrizes devem aumentar em cerca de 40% o número de mulheres elegíveis para o rastreamento, ao incluir aquelas em idade mais jovem e com menor exposição ao tabagismo.
Nos últimos anos, o avanço na compreensão das alterações genéticas associadas ao câncer e o uso de imunoterapia levaram ao desenvolvimento de terapias direcionadas e imunoterapias, que melhoraram o prognóstico de pacientes com câncer de pulmão. Mulheres que nunca fumaram tendem a apresentar prognóstico melhor quando apresentam tumores com alterações moleculares tratáveis.
Por outro lado, os sintomas do câncer de pulmão podem passar despercebidos em mulheres, incluindo tosse, falta de ar, fadiga intensa e dor no peito, costas ou ombro, o que pode ser confundido com outras doenças. Como as pacientes tendem a ser mais jovens no momento do diagnóstico, podem tolerar os sintomas por mais tempo antes de buscar atendimento. Além disso, pode haver hesitação em associar esses sintomas ao câncer de pulmão devido à idade.
Reconhecer os sinais precoces, ampliar a elegibilidade para rastreamento e realizar testes de biomarcadores genéticos para escolher a terapia mais adequada são medidas importantes para combater a epidemia global de câncer de pulmão em mulheres.
_Esta é uma versão atualizada de um artigo publicado pelo The Conversation US em 1º de fevereiro de 2023._
Estelamari Rodriguez é diretora associada de Extensão Comunitária em Oncologia Torácica na Universidade de Miami. Ela não presta consultoria nem possui ações ou financiamento de empresas que possam se beneficiar com a publicação deste artigo, e não revelou vínculos relevantes além de seu cargo acadêmico.
Fonte: G1 Saúde
