Esclerose Múltipla: agora é possível chegar ao diagnóstico mais cedo

Durante muito tempo, uma das grandes dificuldades da esclerose múltipla foi a espera. O primeiro sintoma – visão embaçada, formigamento em um membro ou fraqueza repentina – levava o paciente a fazer exames, mas nem sempre havia elementos suficientes para confirmar a doença imediatamente. Em muitos casos, era preciso acompanhar o paciente por meses até que surgisse nova manifestação clínica ou outra lesão na ressonância magnética, prolongando a angústia e atrasando o início do tratamento.

Essa realidade está mudando. Uma revisão profunda dos critérios internacionais de diagnóstico – os critérios de Mc Donald – incorporou novos conhecimentos e tecnologias que permitem reconhecer a esclerose múltipla com maior precisão. A partir de 2024, é possível estabelecer o diagnóstico mais cedo, sem aguardar nova manifestação da doença, o que preserva mais cérebro e medula, pois cada surto inflamatório deixa marcas irreversíveis.

A esclerose múltipla é uma doença autoimune que ataca a mielina, camada que isola as fibras nervosas e garante a transmissão eficiente dos impulsos elétricos. Quando a mielina é danificada, a comunicação entre o cérebro e o resto do corpo é interrompida, gerando sintomas como alterações visuais, formigamento, perda de força, desequilíbrio, fadiga intensa e problemas urinários. Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma a doença, já que outras condições – neuropatias, vasculites, infecções e enxaqueca – podem produzir quadros semelhantes.

Historicamente, o diagnóstico exigia demonstrar disseminação no espaço (lesões em pelo menos duas áreas distintas do sistema nervoso central) e no tempo (lesões formadas em momentos diferentes). Essa exigência podia demandar acompanhamento prolongado e novas ressonâncias ao longo de meses ou anos, período em que a doença continuava ativa de forma silenciosa.

Os critérios de Mc Donald, atualizados em 2005, 2010, 2017 e agora em 2024, foram aprimorados para reduzir essa demora sem aumentar o risco de diagnóstico equivocado. A ressonância magnética, já central no processo, agora identifica o “sinal da veia central”, que evidencia lesões perivasculares típicas da esclerose múltipla, aumentando a probabilidade de que a lesão seja desmielinizante.

Outra novidade inclui o nervo óptico como região de disseminação no espaço. A neurite óptica, que pode causar perda ou embaçamento da visão e dor ao mover os olhos, passa a ser considerada junto a outras lesões. Exames complementares, como a tomografia de coerência óptica (OCT) e os potenciais evocados visuais, ajudam a detectar danos axonais e desmielinização mesmo sem sintomas visuais evidentes.

A análise do líquor também evoluiu. Além das bandas oligoclonais, que já eram marcadores de atividade imunológica intratecal, os critérios de 2024 incorporam as cadeias leves livres kappa como biomarcador complementar. Essas moléculas oferecem avaliação mais quantitativa da atividade imunológica, aumentando a confiança diagnóstica quando as bandas oligoclonais são inconclusivas.

Apesar da possibilidade de diagnóstico precoce, os novos critérios deixam claro que dores de cabeça, formigamentos ou pequenas alterações na ressonância não são suficientes para confirmar a esclerose múltipla. O objetivo é reconhecer com maior precisão os pacientes cujas evidências clínicas, de imagem e laboratoriais já apontam para a doença, sem inflar o número de diagnósticos.

Fonte: CNN Brasil Saúde

Gostou deste artigo?

Facebook
Twitter
Linkedin
WhatsApp

© COPYRIGHT O ACRE AGORA.COM – TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. SITE DESENVOLVIDO POR R&D – DESIGN GRÁFICO E WEB