Uma breve história sobre ingratidão em uma tribo indígena muito longe daqui

Em uma tribo indígena localizada em mata fechada, séculos atrás, vivia uma gente aguerrida, trabalhadeira e hospitaleira. Recebiam muito bem quem a fosse visitar ou até mesmo fazer morada. Tinha suas próprias leis e uma vida política intensa e pujante. O cacique era eleito pelos habitantes em eleições diretas e possuía diversas regalias. Existia também o “Conselho Caciquiano”, igualmente eleito pelo voto direto e que também possuía grande status e vantagens financeiras. Muitos tentavam chegar até ao “Conselho Caciquiano”. Alguns vendiam a alma para tal.

Um índio chamado Rengafé sonhava ser eleito para o Conselho Caciquiano. Já havia tentado outras vezes, mas o pouco conhecimento da manha política da região, por conta de não ser nativo e a falta de eloquência e de discurso convincente, não deixava o sonho se tornar realidade. Mas Rengafé era obstinado. Não desistia fácil de seus objetivos. Principalmente os que lhe alimentavam o ego e o bolso.

Reuniu uma boa tropa. Alguns Índios abastados e outros nem tanto, mas com muita vontade de fazer com que Rengafé chegasse até ao Conselho Caciquiano. Os abastados ajudavam a financiar a campanha. Presenteavam os eleitores com flechas e carne de caça. Tudo em troca de votos, logicamente. Nesta tribo, embora a troca de bens materiais por voto fosse proibida, era bastante habitual. Aos menos abastados ficava a incumbência de visitar todas as ocas da região em busca dos votos necessários para levar Rengafé à vitória.

Todos tinham embutido, ali, os seus respectivos sonhos. Os índios mais abastados, formados em sua maioria por comerciantes e doutores, sonhavam que com a vitória do “amigo” – eles também seriam influentes e teriam participação ativa no mandato. Os índios mais sofridos financeiramente sonhavam que com a vitória de Rengafé eles teriam durante o exercício do mandato de conselheiro do chefe, uma pequena estabilidade financeira. Que poderiam fazer contas mais longas, trocar de canoa, de oca, enfim, que melhorariam de vida.

Acreditavam nisso por ser uma prática entre os detentores de poder da região, o sentimento de gratidão àqueles que os tivessem ajudado a chegar ao poder. Nesta tribo, em geral, quando um índio ganhava a eleição, valorizava a sua equipe e a vida se tornava menos sofrida para todos. Pi tevi – como era chamada a demissão – só em casos extremos ou de profunda traição ao grupo político do conselheiro.

Com a questão financeira resolvida e com um bom número de índios dispostos e motivados, deu-se início à campanha eleitoral naquela taba. Campanha árdua e sofrida. Mas naquele ano, ao contrário das outras tentativas, vitoriosa. Sim, daquela vez, finalmente Rengafé obtivera êxito. Uma festa grandiosa tomou conta de toda a aldeia naquela noite.

Tinha índio feliz por acreditar que finalmente conseguiria honrar o crediário de uma embarcação nova, outros apenas achavam que conseguiriam se alimentar melhor, teve índio pensando em pedir a mão da amada em casamento, porque finalmente teria segurança financeira para tal. Amarga ilusão! Meses após a festa da vitória, muitos índios já haviam levado o pi tevi. O pragmatismo perverso do novo conselheiro fizera com que ele fosse deixando para trás aqueles que tinham o ajudado a chegar ao topo.

Um jovem índio que acreditou profundamente que a vitória seria coletiva, ao levar o seu pi tevi, precisou vender a sua oca e se mudar para uma mais modesta; outro teve que voltar para a oca de seus pais, de onde houvera saído assim que o resultado das eleições concedeu a vitória a Rengafé. Aos poucos, dias após dias, aquela equipe que ajudou a conduzir ao Conselho Caciquiano o jovem forasteiro, ia sendo jogada para fora da embarcação. Sem o menor constrangimento e sem saber o verdadeiro significado da palavra gratidão, o conselheiro ia fazendo mal a quase todos o que haviam lhe feito bem.

Um velho cacique que também fora jogado fora alguns meses após a gloriosa vitória de Rengafé tentava acalmar os corações dos índios mais jovens, em geral, todos decepcionados com a ingratidão e crueldade do ex-chefe. A esses jovens, o experiente cacique dizia sempre que o tempo se encarrega de tudo, e que a ingratidão é uma forma de fraqueza. Que jamais conhecera homem de valor que fosse ingrato.

O tempo voa, mas os ingratos não têm esse entendimento de que o prato em que se cospe hoje pode ser o mesmo no qual irá, talvez, se alimentar amanhã. E assim a vida seguiu naquela distante comunidade indígena. Rengafé sempre muito preocupado com o futuro, esqueceu-se do passado e não viveu o presente. Pobre índio.

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