Secretário erra ao tratar detector de metais como símbolo de prisão

A escola não é presídio. Nisso, o secretário de Educação do Acre, Reginaldo Prattes, tem razão. Nenhum pai quer deixar um filho em um ambiente que pareça uma unidade de contenção. Nenhum professor escolheu a profissão para trabalhar cercado por clima de medo, vigilância permanente e procedimentos humilhantes. Escola deve ser espaço de aprendizagem, convivência e construção de futuro.

O problema começa quando essa frase passa a ser usada como resposta simplificada para um problema que deixou de ser teórico no Acre.

Na última semana, um adolescente de 13 anos entrou armado no Instituto São José, em Rio Branco, e matou duas servidoras. Não foi um boato de internet, uma ameaça vaga ou um caso distante reproduzido pela televisão. Aconteceu aqui. Dentro de uma escola. Em um ambiente que deveria ser seguro.

Depois da tragédia, voltou ao centro do debate uma lei estadual aprovada em 2023 que tornou obrigatória a instalação de detectores de metais em escolas públicas e privadas do Acre. A reação do secretário foi rejeitar a ideia de transformar as unidades em “presídios”.

Mas talvez o debate esteja sendo conduzido da forma errada.

Detector de metais não transforma automaticamente nenhum lugar em presídio. Fóruns usam. Aeroportos usam. Tribunais usam. Casas legislativas usam. Eventos públicos usam. Bancos usam. O equipamento, por si só, não define a natureza do ambiente. O que define é a forma como ele é aplicado, o protocolo adotado e o equilíbrio entre segurança e respeito.

O risco de reduzir a discussão a uma frase de efeito é criar uma falsa escolha: ou a escola permanece “humana”, ou vira uma prisão. E não é isso que está em jogo.

O que está em jogo é uma pergunta muito mais difícil: como proteger estudantes e trabalhadores sem transformar professores em agentes de segurança e sem fingir que boa vontade impede uma tragédia?

Nesse ponto, o próprio secretário acerta quando afirma que professor não é policial. Não é razoável transferir para educadores a responsabilidade de enfrentar possíveis situações violentas. Também é correto dizer que acolhimento emocional, combate ao bullying e participação das famílias precisam fazer parte da solução.

Mas há uma diferença entre reconhecer que segurança não se resolve apenas com detectores e tratar o debate sobre controle de acesso como exagero.

Porque cultura de paz não barra arma na entrada.

Acolhimento psicológico não substitui protocolo.

E pedir que estudantes abram mochilas manualmente, sem estrutura adequada e sem profissionais preparados, pode acabar produzindo exatamente o improviso que o Estado deveria evitar.

Há ainda uma questão inevitável: se existe uma lei desde 2023 prevendo detectores de metais, por que ela voltou a ser discutida apenas depois de duas mortes?

Essa talvez seja a pergunta mais desconfortável de todas.

O governo afirma que já investe em segurança escolar, com gastos milionários em guarda armada, controle de acesso, câmeras e equipamentos. Se isso é verdade, por que a sensação transmitida após o ataque foi a de reação emergencial? Por que tantas escolas ainda parecem depender de medidas improvisadas justamente depois de uma tragédia anunciada pelo medo coletivo?

É importante evitar oportunismo emocional. Nenhuma medida isolada impediria toda possibilidade de violência. Um detector não resolve abandono familiar, radicalização virtual, sofrimento psicológico ou falhas sociais profundas. Quem vende solução mágica para um problema complexo está enganando a população.

Mas o extremo oposto também é perigoso: agir como se discutir barreiras mínimas de proteção fosse um atentado contra a educação humanizada.

Não é.

O Acre não precisa escolher entre escola-presídio e escola vulnerável. Precisa escolher entre protocolo sério e improviso permanente.

Porque depois do que aconteceu no Instituto São José, já não é mais possível tratar segurança escolar apenas como discurso pedagógico. Existe uma realidade concreta batendo na porta das escolas — e ignorá-la não torna essa realidade menos perigosa.

A escola deve continuar sendo um espaço de paz. Mas paz sem proteção, hoje, começa a soar menos como princípio e mais como esperança de que a próxima tragédia não aconteça de novo.

Ricardo Nunes Ferreira é professor

Gostou deste artigo?

Facebook
Twitter
Linkedin
WhatsApp

© COPYRIGHT O ACRE AGORA.COM – TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. SITE DESENVOLVIDO POR R&D – DESIGN GRÁFICO E WEB