Reflexões sobre a existência rio-branquense diante da pandemia do coronavírus

A reconhecida e disseminada frase “Eu sou eu e minha circunstância” de Ortega y Gasset nos incomoda e nos pressiona – como uma mosca a zumzumbizar em nossos ouvidos, já cantada por Raulzito – a desenvolver uma reflexão a respeito da pandemia, da existência do sujeito rio-branquense e da relação obscura entre ambas. A pandemia causada pela doença chamada de coronavírus (COVID-19) acondiciona as possibilidades da vivência, restringe as múltiplas condições do Ser, toma de assalto as variáveis significações da realidade.

Tal doença passa aos poucos se revelando uma fatal ameaça, assim nessa constante, a senhora da feira recomenda o uso constante de luvas, o policial adverte nas ruas acerca da máscara, a operadora de caixa do supermercado indaga sobre o álcool em gel, enfim, uma nova rotina de medo, uma nova aflição na alma atingindo diretamente o corpo. No entanto, quando se fala do medo e da aflição, não estamos inaugurando novas emoções nem descobrindo inéditos sentimentos humanos, eles (sentimentos, emoções ou capacidade sensitivas) já estavam presentes nessa sociedade contemporânea com outras “máscaras”, com o “capuz” da desigualdade social, com o “boné” da violência doméstica ou com a “bandana” da rivalidade e genocídio entre os jovens faccionados da cidade de Rio Branco (deixando as claras, aqui, o sentido não é relativizar, mas, denunciar).

Nessa circunstância caótica, e não podendo reconstruir, nem representar a realidade, tendo em vista que a mesma se comina, o coronavírus se apresenta como mais um destruidor e devastador da existência. Com isso, algumas questões, neste momento, parecem imprescindíveis: O que é a vida? Como viver? O que é ou quem é o outro? (não esperem respostas objetivas ou utilitárias, pois, não existe receituário, nem manual para vida feliz).

Por que, então, reelaborar problemáticas tão frequentes? São indagações que não aceitam respostas baseadas em proposições, perspectivas e teorias, ainda mais, se essas estiverem “endereçadas com selos” metafísicos, transcendentais, idealistas, utópicos ou românticos. Essas são, além de teoréticas, hipóteses distanciadas absurdamente da vida. E tomando como explicita relação a vida, o viver e o outro, o real incorpora uma circunstância inevitável. Como diria Ortega y Gasset, em sua profunda ironia: “A realidade é idealidade. A rigor e em minha verdade, existe só o ideante, o pensante”.

O real humano não é um teatro, espetáculo de ilusionismo, uma alucinação. O representar é sempre possível, abstruso é viver. Portanto, o indivíduo rio-branquense e seus mais de quatrocentos mil conterrâneos, irão ter de encarar o que realmente existe a violência-genocida, a violência-política e a violência-pandêmica, “essa realidade envolvente é material e é social”, logo, distinta da idealização, da representação e da transcendentalização. Por fim, “Eu e minha circunstância” pode ser uma indicação ao rio-branquense de tomar para si a responsabilidade, principalmente individual/particular para consequência social, como fundamento de sua realidade-existencial.  

Aluizio Oliveira – professor de filosofia 



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