O reajuste de 15% do Bolsa Família, anunciado 17 dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais, gerou críticas de economistas e reação negativa nos mercados, elevando a preocupação com a trajetória fiscal do governo. O piso do benefício passa de R$ 600 para R$ 691, e a média sobe de R$ 691 para R$ 777.
O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, afirmou que o impacto estimado – R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22 bilhões em 2027 – será absorvido pelo espaço fiscal já existente nos dois exercícios.
A medida surge num cenário de avanço dos gastos públicos, resultado primário negativo e dívida que já ultrapassa 80% do PIB, ampliando a incerteza sobre as contas do Estado.
Marcela Kawauti, economista‑chefe da gestora Lifetime, alertou: “Se o governo, às vésperas da eleição, dá esta indicação de gastos adicionais, ampliação de programas de transferência de renda, a gente pode esperar que isso continue, num quarto mandato”. “A sinalização acaba sendo muito ruim do ponto de vista de incerteza fiscal”, completou.
André Galhardo, da Análise Econômica, concordou que, embora o impacto fiscal seja relativamente modesto, a medida transmite a mensagem de que um eventual ajuste das contas públicas em 2027 pode não ser levado adiante por um novo governo Lula, o que pesa sobre o humor dos mercados. “Essa percepção também pode levar o Copom a interromper o ciclo de cortes da Selic, diante do aumento do risco fiscal”, afirmou.
Galhardo ainda recordou a PEC “Kamikaze”, editada por Jair Bolsonaro, e considerou que Lula repete um erro do passado, sobretudo porque a inflação continua acima das metas, ainda que hoje esteja mais controlada.
Gabriel Leal de Barros, economista‑chefe da Arx Investimentos e ex‑diretor da Instituição Fiscal Independente, classificou o aumento como “uma surpresa negativa que aprofunda o desequilíbrio fiscal estrutural”. “É mais um aumento das obrigações que fragiliza a já muito delicada equação fiscal do País, ampliando o desafio de reequilíbrio a partir de 2027 e que consumirá notável capital político”, disse.
Luciano Rostagno, estrategista‑chefe da EPS Investimentos, criticou a elevação por decreto: “A sinalização do governo com aumento do Bolsa Família é péssima”. “Parece que bateu desespero no governo”, acrescentou, observando que a medida elevou a percepção de risco, pressionou a curva de juros e reduziu a probabilidade de cortes da taxa Selic nas próximas reuniões, gerando “ligeira alta” nas expectativas para dezembro.
Fonte: Estadão Economia
