O candidato ao Governo do Acre, Alan Rick (Republicanos), preferiu atacar a governadora Mailza Assis (PP) a explicar um acordo de R$ 486,4 mil firmado com o Ministério Público Eleitoral em investigação sobre o uso de recursos do Fundo Eleitoral nas eleições de 2018. Durante entrevista à TV Gazeta, o senador foi questionado sobre a confissão formal prevista no documento, mas desviou o assunto para a adversária, insinuando que ela enfrenta problemas judiciais.
A pergunta foi feita pelo jornalista Gabriel Rota, que mencionou reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo sobre o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) assinado por Alan Rick em outubro de 2025. O entrevistador pediu explicações sobre o episódio e questionou quais medidas o candidato adotaria para garantir o uso ético de recursos públicos caso fosse eleito governador.
Em vez de esclarecer as circunstâncias do acordo, Alan Rick afirmou não ter problemas com a Justiça e direcionou críticas aos adversários.
“Primeiro, eu sou ficha limpa, Gabriel. Não existe nenhum processo contra mim. O caso que você se refere é relativo a uma eleição de 2018, quando eu era presidente do partido. Eu prestei todos os esclarecimentos necessários e, obviamente, isso foi respondido. Eu não tenho nenhum problema judicial, diferentemente dos nossos adversários”, declarou.
A referência aos adversários, que inclui Mailza na disputa pelo governo, não veio acompanhada da indicação de processos ou fatos específicos. O senador também não explicou por que aceitou as condições financeiras estabelecidas no acordo com o Ministério Público Eleitoral.
Acordo de R$ 486 mil
Em reportagem publicada em 29 de setembro, o Estadão revelou que Alan Rick firmou um acordo relacionado à investigação sobre a destinação de recursos eleitorais em 2018.
Segundo o jornal, que teve acesso a um processo de quase duas mil páginas mantido sob sigilo no Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC), o senador admitiu formalmente os fatos investigados para a celebração do ANPP, instrumento que permite evitar o prosseguimento da persecução penal mediante o cumprimento de condições legais.
Pelo acordo, Alan Rick assumiu o compromisso de pagar R$ 406,4 mil como reparação de danos ao erário, divididos em 40 parcelas, além de R$ 80 mil em prestação pecuniária, parcelados em 20 vezes. O valor total chega a R$ 486,4 mil.
A investigação teve origem no caso conhecido como “Laranjal do DEM”. Na eleição de 2018, R$ 240,3 mil do Fundo Eleitoral foram destinados à candidatura de Sônia de Fátima Silva Alves a deputada estadual. Ela recebeu apenas seis votos.
De acordo com a Polícia Federal, parte dos recursos foi transferida a prestadores de serviços que reconheceram ter trabalhado na campanha de Alan Rick. Os investigadores apontaram indícios de utilização da candidatura feminina para atender formalmente às regras eleitorais.
Defesa nega crime
Ao Estadão, a defesa do senador confirmou a celebração do acordo, mas ressaltou que o ANPP não representa uma condenação criminal. Os advogados classificaram a medida como uma decisão de prudência diante dos riscos de um processo e sustentaram a inexistência de responsabilidade penal do candidato.
Na entrevista à TV Gazeta, entretanto, Alan Rick não esclareceu quanto já pagou dos R$ 486,4 mil previstos no documento nem informou o estágio de cumprimento das obrigações assumidas. Sua defesa também não havia fornecido essas informações ao Estadão, alegando segredo de Justiça.
Assim, diante de uma pergunta sobre um acordo assinado por ele próprio, o candidato preferiu questionar a situação judicial dos adversários. O ataque político, porém, não respondeu às dúvidas sobre a aplicação dos recursos eleitorais investigados nem sobre o cumprimento das condições pactuadas com o Ministério Público Eleitoral.
