Quando um cadáver velado na sala ainda podia ser capa de jornal

Estávamos na década de 90, mas me lembro como se fosse hoje. O corpo na sala, estirado dentro do caixão, revelava as feições juvenis. Era só um garoto, acho que com seus 16 anos. Vítima de um único tiro nas costas. Em volta do caixão, os parentes choravam. Outras pessoas, pelos cantos, falavam aos cochichos. Ou apenas se deixavam ficar, lábios cerrados, olhar vazio.  

Entramos sem ser convidados. Eu, repórter do Diário Marco Zero, me fazia acompanhar do fotógrafo Maurício Lentz. Perguntei pelo dono da casa. Estava acamado, alguém me respondeu. Fomos até o quarto e eu me identifiquei. Disse também que estava ali para fazer uma matéria sobre o assassinato do menino.

O momento, claro, não era de reportagens. Mas lá estava eu. O constrangimento daquela abordagem só não era maior que a dor dos parentes do morto. Um garoto, como já falei, estava estirado na sala, dentro do caixão. O pai jazia na cama, de luto.

Era um homem negro, calvo, forte. E me fitou com amabilidade, ao contrário do que esperava. Foi categórico ao dizer:

– Pergunte o que quiser, moço, que eu conto tudo. Só não vou permitir fotografia do meu filho morto, dentro do caixão.   

Senti compaixão por aquele pai, agora órfão do filho. Tive vontade de confortá-lo, mas as palavras me faltaram, o senso do dever a me empurrar para o essencial: fazer perguntas.

E foi o pai que me contou, olhos marejados, aquilo que ficou sabendo por terceiros. Era madrugada, e o rapaz perambulava pelas ruas com amigos. Um deles se envolveu em uma confusão com um grupo contrário, houve correria e se ouviu um único tiro, disparado na direção de um dos rapazes. A vítima, sangrando, ainda conseguiu correr alguns metros, antes de cair, sem vida.

Minutos depois, o mensageiro da desgraça batia palmas à porta daquela casa em que Maurício Lentz e eu escutávamos, soturnos, a narrativa dramática.  

Estávamos, como já disse, na década de 1990. Ainda se podia caminhar pelas ruas de Macapá sem grandes preocupações com a violência. Por isso não julguemos os pais do garoto. Era uma época de poucas armas, poucos bandidos e de reportagens (como aquela) escassas.

Terminada a missão de entrevistar um membro da família, guardei o bloco de anotações e a caneta. Desejei os pêsames ao pai do falecido e saí.

Na sala, Maurício ainda levantou a câmera na direção do caixão, na tentativa de fazer o seu trabalho. Impedi-o, com a mão sobre a máquina fotográfica.

– Porra, Maurício, o dono da casa falou ‘sem fotos’! Então vamos respeitar…

Saí dali com um peso nos ombros, a sentir também a frustração do meu companheiro de trabalho.

No dia seguinte, a matéria sobre a morte do garoto estava estampada na capa. Sem foto. O editor me chamou à sua sala. Queria saber por que não havia imagem. Expliquei o acordo com a família e ele entendeu, contrafeito.

Como eu disse, foi no tempo em que assassinatos de jovens ainda ganhavam a manchete principal. Hoje a violência, de tão banalizada, já não nos revolta.

Meus pêsames, leitor.

Amaro Alves foi repórter de polícia até se aposentar, em 2009; vive atualmente em Belém (PA), de onde escreve com exclusividade para oacreagora.com

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