Os quartos de neve que ultrarricos instalam em casa para escapar do calor

No verão brasileiro, quem tem condições de pagar busca alívio no ar‑condicionado potente, na piscina ou no ventilador ligado a noite toda. Para um grupo pequeno, porém crescente, de ultrarricos ao redor do mundo, a solução tem sido mais radical: instalar um inverno artificial dentro de casa.

Esses ambientes, chamados de quartos de neve, são câmaras geladas onde flocos de neve caem do teto, proporcionando a sensação de estar dentro de uma bola de neve. Enquanto as temperaturas sobem a recordes em grande parte do planeta, proprietários de imóveis de altíssimo padrão vêm equipando residências, coberturas e até iates com essas instalações.

No Brasil ainda não há registro conhecido de um quarto de neve concluído. Consultadas pela BBC News Brasil, a italiana Techno Alpin e a americana Spa Butler confirmaram que nunca instalaram o equipamento no país, embora a Spa Butler tenha recebido “consultas vindas da América do Sul” que não se transformaram em projetos finalizados.

A Spa Butler aponta que, em São Paulo, existe a crioterapia em spas de hotéis de luxo e clínicas especializadas, mas essa prática difere do quarto de neve. Na crioterapia, o corpo é resfriado por água gelada ou ar seco, em banheiras entre 4 °C e 15 °C ou em câmaras de nitrogênio que chegam a –80 °C ou –190 °C, sem neve real nem flocos.

A Techno Alpin, uma das maiores fabricantes de canhões de neve do mundo, adaptou a tecnologia usada em pistas de esqui para ambientes internos há cerca de dez anos. Segundo Elisabeth Steger, diretora de desenvolvimento de negócios da divisão de neve indoor da empresa, os quartos de neve nasceram no setor profissional de bem‑estar e spa, servindo como terapia de contraste para baixar a temperatura corporal após a sauna. A empresa oferece o modelo Snowroom, mantido a –10 °C com neve produzida todas as noites, e o Snowsky, que simula uma nevasca contínua com efeitos de luz.

Nos Estados Unidos, a Spa Butler, fundada no Texas em 2018, especializa‑se em levar a instalação para residências, iates e spas de luxo. Tyler Slater, sócio‑fundador e diretor de operações, afirma que a empresa já entregou dezenas de projetos na América do Norte, Europa e Oriente Médio.

Um quarto de neve padrão da Spa Butler, com cerca de 2,1 metros por três metros, tem preço inicial de US$ 128 mil (cerca de R$ 653 mil). Versões personalizadas, com acabamentos em mármore, pedra ou madeira, podem ultrapassar US$ 300 mil (R$ 1,53 milhão), dependendo do tamanho e da customização.

A instalação requer refrigeração comercial dedicada, rede elétrica própria, sistema de drenagem, ventilação e isolamento térmico reforçado, assemelhando‑se mais a uma câmara frigorífica que a um freezer doméstico.

Slater acrescenta que o consumo de energia varia conforme o tamanho, o clima local e a frequência de uso, mas que modelos mais recentes são mais eficientes graças a isolamento avançado e controles automatizados.

Entre os casos mais citados, o bilionário indiano Mukesh Ambani instalou um quarto de neve em Antilia, sua mansão de 27 andares em Mumbai. O superiate Serene, de 134 metros, também possui a estrutura, mantida a –11 °C pelo príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, que adquiriu o iate em 2015. Anteriormente, o magnata russo Yuri Shefler e Bill Gates chegaram a fretar a embarcação por até US$ 5 milhões por semana, segundo reportagem do New York Times. Nos Estados Unidos, a texana Katelin Schebler, sócia de um spa de alto padrão em Frisco, mandou instalar um iglu particular dentro de casa, descrevendo a experiência como “uma tempestade agradável, não uma nevasca de verdade”.

Corretores de iates observam uma mudança de prioridade entre os compradores. “Antes, o design de um iate girava em torno de festas e bares. Hoje o foco está muito mais em saúde e longevidade”, afirma Kevin Kramer, corretor da Burgess Yachts em Aspen, Colorado.

A lógica comercial dos quartos de neve segue a mesma tendência que popularizou banheiras de gelo e saunas em spas e academias: alternar calor e frio para estimular a circulação. “É a mesma coisa que a sauna faz com o calor — o quarto de neve faz com o frio. E, como a sauna, também vira ponto de encontro social”, explica Alina Hernandez, diretora de inovação da Touchless Wellness Association, em material de divulgação da Techno Alpin.

Fonte: BBC News Brasil

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