O ônibus 174 e o dia em que o Brasil parou diante da televisão

Nesta sexta-feira (12), completam-se 26 anos de um dos episódios mais marcantes da história policial brasileira. Em 12 de junho de 2000, milhões de pessoas acompanharam ao vivo o sequestro do ônibus 174, no Rio de Janeiro, uma tragédia que terminou com duas mortes e deixou marcas profundas no debate sobre violência, segurança pública e exclusão social no país.

Naquela tarde, um ônibus da linha 174, que fazia o trajeto entre o Centro e a zona sul da capital fluminense, transformou-se no centro das atenções do Brasil. Armado com um revólver, Sandro Barbosa do Nascimento manteve passageiros reféns por quase cinco horas diante das câmeras de televisão que transmitiam cada movimento em tempo real.

O país inteiro assistiu à tensão crescer minuto após minuto. Em uma época em que a internet ainda engatinhava, a televisão interrompeu a programação normal para acompanhar o drama. O que parecia mais um caso de violência urbana rapidamente ganhou contornos de tragédia nacional.

Mas a história de Sandro não começou naquele ônibus.

Sete anos antes, ele havia sobrevivido à Chacina da Candelária, um dos episódios mais violentos da história recente do país. Na madrugada de 23 de julho de 1993, policiais abriram fogo contra crianças e adolescentes em situação de rua que dormiam nas proximidades da Igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. Oito jovens morreram.

Sandro escapou dos disparos, mas carregou para o resto da vida as marcas de uma infância marcada pela violência, pelo abandono e pela ausência do Estado.

Durante o sequestro, negociadores tentaram convencê-lo a se entregar. Enquanto isso, o país observava perplexo a sucessão de ameaças, gritos e momentos de tensão. Reféns eram libertados, outros permaneciam sob a mira da arma. A operação policial se desenrolava sob pressão inédita, acompanhada por milhões de espectadores.

O desfecho ocorreu no início da noite.

Ao deixar o ônibus usando uma refém como escudo humano, Sandro foi alvo de um disparo efetuado por um policial. O tiro não atingiu o sequestrador e acabou acertando a professora Geísa Firmo Gonçalves, de 20 anos. Em meio à confusão, Sandro efetuou novos disparos contra a jovem, que morreu pouco depois.

O sequestrador foi dominado pelos policiais e colocado em uma viatura. Muitos acreditavam que ele responderia pelos crimes na Justiça. No entanto, poucas horas depois, veio a segunda tragédia.

Sandro morreu dentro do camburão da Polícia Militar. Investigações posteriores apontaram que ele foi asfixiado durante a condução. Assim, o caso que já havia terminado com a morte de uma refém ganhou um novo capítulo de controvérsia e indignação.

As imagens do ônibus 174 ficaram gravadas na memória coletiva dos brasileiros. O episódio expôs falhas operacionais da polícia, levantou questionamentos sobre a atuação das forças de segurança e reacendeu o debate sobre a responsabilidade do Estado diante de crianças e adolescentes abandonados.

Mais de duas décadas depois, o caso continua sendo lembrado não apenas pelo sequestro em si, mas pelo simbolismo que carrega. O ônibus 174 revelou um país incapaz de impedir que um menino sobrevivente de uma chacina chegasse à vida adulta carregando traumas que jamais foram tratados.

No fim das contas, o ônibus parado em uma rua do Jardim Botânico tornou-se muito mais do que uma cena de crime. Virou um espelho. E o que o Brasil viu refletido naquele espelho, há 26 anos, continua provocando desconforto até hoje.

*Amaro Alves foi repórter de polícia até se aposentar, em 2009; vive atualmente em Belém (PA), de onde escreve com exclusividade para oacreagora.com

Gostou deste artigo?

Facebook
Twitter
Linkedin
WhatsApp

© COPYRIGHT O ACRE AGORA.COM – TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. SITE DESENVOLVIDO POR R&D – DESIGN GRÁFICO E WEB