Uma pesquisa realizada pela organização não governamental inglesa More in Common, em parceria com o instituto de pesquisas Ipsos‑Ipec, revelou que 51% dos brasileiros têm opinião negativa sobre influenciadores que anunciam apostas esportivas, enquanto apenas 9% mantêm impressão positiva. A pesquisa, que entrevistou dois mil pessoas com 16 anos ou mais em 130 municípios entre quatro e oito de julho, tem margem de erro de dois pontos percentuais.
Os entrevistados foram questionados de forma aberta, e as respostas espontâneas foram posteriormente categorizadas. Entre os que manifestaram visão negativa, 22% consideram esses influenciadores “irresponsáveis”, “egoístas”, “manipuladores” e “sem ética”. Outros 17% os acusam de ser má influência e de explorar o público, 8% afirmam que pensam apenas no próprio benefício e 4% defendem que deveriam ser punidos ou que suas propagandas deveriam ser proibidas.
Quanto ao efeito da propaganda de apostas na confiança dos consumidores, 40% disseram que passaram a confiar menos em celebridades que promovem esse tipo de produto, 53% afirmaram que a confiança não mudou, 4% passaram a confiar mais e 4% não souberam responder. A desconfiança foi maior entre os mais escolarizados (48% entre quem tem ensino superior) e entre quem ganha acima de cinco salários mínimos (46%).
O professor Ortellado, que também leciona no curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), explicou que o influenciador troca um ganho imediato por desgaste de reputação, o que pode comprometer sua capacidade de monetização futura.
Em relatório de 2024, o Itaú estimou que o setor de apostas gastou entre R$ 5,8 bilhões e R$ 8,8 bilhões em marketing, números que devem crescer em 2026. O patrocínio master da Série A do Campeonato Brasileiro aumentou 125% em dois anos, tornando o segmento o terceiro maior anunciante na TV.
O presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), Plínio Lemos Jorge, ressaltou a necessidade de diferenciar influenciadores que promovem operadores autorizados pelo Ministério da Fazenda daqueles que divulgam plataformas ilegais, que costumam direcionar campanhas a menores e usar promessas enganosas de ganhos fáceis. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) não respondeu a pedido de comentário.
Em junho, o apostador André Andrade entrou na Justiça contra as empresas de intermediação de apostas e contra os influenciadores Virginia Fonseca, Deolane Bezerra e Carlinhos Maia, alegando que as divulgações contribuíram para seu transtorno de jogo. Andrade contou que, ao apostar R$ 700, ganhou R$ 12 mil em menos de quatro horas, mas acabou perdendo mais de R$ 100 mil, perdendo a casa própria, o salão de beleza e a estabilidade financeira.
O juiz Bruno Gonçalves Mauro Terra, da 5ª Vara Cível da Comarca de Campinas, excluiu duas das empresas e os três influenciadores do processo, argumentando que não havia relação jurídica direta entre eles e o autor, limitando‑se a prestação de serviços financeiros ou veiculação de conteúdo nas redes sociais. O pedido de justiça gratuita foi indeferido, e a ação continua contra uma das empresas, com possibilidade de recurso ao Tribunal de Justiça de São Paulo.
As assessorias de imprensa de Virginia Fonseca e Deolane Bezerra declararam que não se pronunciarão sobre o caso. A defesa de Carlinhos Maia afirmou que a decisão judicial reforça a inexistência de fundamento jurídico para responsabilizar o influenciador pelos prejuízos alegados e que acompanhará eventuais recursos.
Criada em 2016 na Inglaterra, a More in Common nasceu após o assassinato da parlamentar Jo Cox e dedica‑se ao estudo da polarização política. Ortellado destacou que, no Brasil, o tema das apostas não divide a população: “Todos os eleitores, independentemente de orientação política, condenam as apostas, que geram vício e endividamento nas famílias”. As novas regras proíbem apresentar apostas como investimento ou ganho fácil, reforçando a necessidade de proteção ao consumidor.
Fonte: BBC News Brasil
