Instituto São José: o dia em que o Acre descobriu que o aviso foi ignorado

Durante três anos, o que parecia exagero para alguns era, na verdade, um alerta desesperado. Em escolas de Rio Branco, policiais penais acreanos treinavam alunos, professores e servidores para sobreviver ao pior cenário possível: um ataque com atirador ativo dentro do ambiente escolar. O protocolo existia. O treinamento existia. O aviso existia.

O apoio, não.

Em maio de 2023, reportagens já mostravam que policiais penais, militares e bombeiros do Acre estavam mobilizados para ensinar procedimentos de evacuação, reação e proteção em casos de atentados em escolas. O trabalho era conduzido pela Associação Amigos da Escola, criada justamente após a onda de massacres escolares que aterrorizava o Brasil.

Na época, enquanto parte da burocracia estatal tratava o assunto como histeria coletiva ou espetáculo midiático, profissionais da segurança pública afirmavam, com todas as letras: não era questão de “se” aconteceria no Acre. Era questão de “quando”.

O “quando” chegou.

E chegou da forma mais cruel possível.

Duas mulheres — Alzenir Pereira, de 53 anos, e Raquel Sales Feitosa, de 36 — tiveram suas vidas arrancadas dentro do ambiente que deveria representar proteção, aprendizado e futuro. Foram assassinadas em um ataque armado ocorrido no Instituto São José, no centro de Rio Branco. Outras pessoas ficaram feridas. O autor dos disparos, um adolescente de 13 anos, confessou o crime e foi apreendido.

Agora, diante dos caixões fechados, das famílias destruídas e do trauma coletivo instalado na capital acreana, surge a pergunta que ninguém no governo quer responder:

Por que os treinamentos pararam?

A resposta é tão revoltante quanto previsível: abandono institucional, falta de apoio e absoluta incapacidade da cúpula governamental de compreender que segurança preventiva não produz manchetes eleitorais — mas salva vidas.

Enquanto estados e países desenvolvidos investem milhões em protocolos de resposta rápida, inteligência preventiva, monitoramento comportamental e treinamento escolar contínuo, no Acre iniciativas pioneiras foram deixadas à própria sorte. Policiais penais que dedicavam folgas e tempo pessoal para preparar escolas encontraram portas fechadas, desinteresse político e silêncio burocrático.

O resultado não é abstrato.

Tem nome. Tem rosto. Tem velório.

O mais grave é que a tragédia não nasceu no instante dos disparos. Ela começou anos antes, quando autoridades preferiram discursos vazios a políticas públicas concretas. Quando ignoraram especialistas da segurança. Quando transformaram prevenção em pauta secundária. Quando acharam mais confortável reagir após o sangue derramado do que agir antes dele.

Não faltaram sinais.

O Brasil inteiro assistia, desde 2023, à escalada de ataques em escolas. Santa Catarina, São Paulo, Paraná, Goiás, Rio Grande do Sul. O fenômeno crescia alimentado por redes extremistas, isolamento social, adoecimento psicológico juvenil e falhas graves na segurança escolar. Ainda assim, o Acre caminhou como se estivesse imune à realidade nacional.

Não estava.

Nunca esteve.

Agora surgem pronunciamentos oficiais, notas de pesar, promessas de criação de comissões, reforço policial temporário e discursos emocionados diante das câmeras. Mas nenhuma coletiva de imprensa conseguirá apagar um fato brutal: havia gente alertando. Havia protocolos sendo aplicados. Havia treinamento funcionando.

E tudo isso foi deixado morrer lentamente pela omissão estatal.

A tragédia de Rio Branco não pode ser tratada apenas como um ato isolado de violência juvenil. Ela é também o retrato de um fracasso institucional profundo. Um fracasso de gestão. De prioridade. De visão estratégica. Um fracasso moral.

Porque governos que ignoram prevenção ajudam a construir o terreno da tragédia.

E quando o Estado escolhe economizar na prevenção, a sociedade paga em funerais.

As mortes de Alzenir Pereira e Raquel Sales Feitosa não representam apenas a dor de duas famílias. Representam o colapso de uma cultura política que despreza a prevenção, sufoca iniciativas técnicas e só desperta quando o luto já ocupa as manchetes.

O Acre não fracassou por falta de aviso.

Fracassou porque escolheu não ouvir.

Hoje, o estado chora diante de escolas transformadas em cenários de trauma.

Mas a verdadeira pergunta que ficará para a história é outra:

Quantas vidas ainda precisarão ser enterradas até que a prevenção deixe de ser tratada como exagero e passe a ser reconhecida como dever absoluto do Estado?

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