Soldados nascidos na Ucrânia são capturados por lutarem pela Rússia

No oeste da Ucrânia, altas paredes e uma série de portões trancados encerram um campo de prisioneiros de guerra repleto de homens capturados que lutavam pela Rússia. Muitos dos detidos foram recrutados em grandes cidades russas, como São Petersburgo e Ecaterimburgo, ao contrário dos primeiros estágios da invasão, quando a maioria vinha de áreas mais pobres e distantes. Entre os presos, porém, há também soldados ucranianos que foram enviados ao front ao lado das forças russas.

A BBC ofereceu a todos o direito de recusar a entrevista e conduziu as conversas longe dos guardas e sem câmeras, garantindo que os depoimentos não fossem obtidos sob coerção. As entrevistas foram realizadas em russo, tanto em formato formal quanto em diálogos informais nos diferentes setores da prisão.

Anton, que tinha dez anos quando a região de Donbas foi ocupada, completou 18 em 2022, ano em que o presidente Vladimir Putin intensificou a guerra, e alistou‑se imediatamente para lutar pela Rússia. “Não me arrependo da minha escolha”, afirma Anton, acrescentando que foi “defender a minha terra”. Ele relata que todos os companheiros que foram ao front morreram, e que poucos ainda se voluntariam, mesmo com os altos pagamentos oferecidos.

Artyom, natural de Donetsk, também entrou na guerra por vontade própria e serviu apenas dois meses antes de ser capturado. Ele descreve a experiência como amarga, menciona que seu comandante era “ruim” e que nunca recebeu a taxa de alistamento prometida de 400 mil rublos (cerca de US$ cinco mil). Enquanto isso, um soldado russo ferido recebeu cinco vezes esse valor, o que aumentou seu ressentimento.

Dados de inteligência oficial apontam que mais de 50 mil ucranianos foram recrutados contra a vontade nas áreas ocupadas, embora outras estimativas sejam ainda mais altas. Um dos prisioneiros explicou que sua família permaneceu em Donetsk não por lealdade política, mas porque era sua casa, e que agora deseja apenas voltar para a esposa e os filhos e evitar um novo retorno ao front.

Dentro do complexo, os detidos trabalham em oficinas que produzem caixões de madeira e árvores de Natal artificiais, além de cultivar morangos e pepinos nos canteiros próximos ao hospital da prisão. “A última encomenda foi de cabanas de jardim, mas aqui parece macabro”, comenta um oficial ao mostrar um saco dourado usado para transportar os caixões.

Sergei, nascido em Luhansk, declara ser russo apesar de sua origem ucraniana e afirma que entrou no exército russo há dez anos “para defender a minha pátria”. Já Konstantin, que se alistou para fugir da prisão, conta que 15 anos de detenção seriam “demais” e que, aos 44 anos, prefere não voltar ao front. Ambos reconhecem que a guerra não traz nada de bom e que a perspectiva de um fim rápido parece distante.

Para Kiev, os prisioneiros de guerra são vistos como moeda de troca para repatriar soldados ucranianos capturados, embora na prática eles permaneçam ao lado dos russos nos campos. Enquanto isso, os internos continuam assistindo a vídeos de propaganda sobre a Crimeia, mas poucos prestam atenção, evidenciando um processo de reeducação que carece de convicção.

A guerra, segundo os próprios prisioneiros, poderia ter terminado, mas “ninguém quis”. A esperança de que o conflito chegue ao fim permanece limitada, e a realidade dentro dos campos reflete a complexa mistura de identidade, coerção e sobrevivência que marca a vida dos soldados capturados.

Fonte: BBC News Brasil

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