O trabalho remoto ganhou grande destaque durante a pandemia de covid-19 por ter se tornado popular a fim de evitar aglomerações e espalhar ainda mais a doença.
Com a retomada da normalidade, muitas empresas passaram a recolher seus colaboradores aos escritórios. Dados da consultoria Newmark mostram que a vacância de escritórios caiu de 25,1% no segundo trimestre de 2021 para 14,3% no mesmo período deste ano.
A fintech Recarga Pay, porém, continua operando 100% em modelo remoto, prática adotada antes da crise sanitária. Segundo Miguel Perdigão, gerente geral de produtos financeiros da empresa, a equipe conta hoje com cerca de 500 profissionais distribuídos por 100 cidades em países como Brasil, Argentina, Portugal e Estados Unidos.
Perdigão afirma que o trabalho à distância funciona como forte aliado na retenção e no recrutamento, sobretudo no setor financeiro, onde concorrentes exigem o retorno ao presencial. “Temos todos os controles que precisamos ter como uma instituição financeira e lançamos nos últimos dois anos todos os produtos que uma plataforma financeira tem. Trabalhando 100% remoto”, declarou durante o painel do Rio Innovation Week, mediado por Lucas Agrela, repórter do Estadão.
André Chiarini, presidente da Spare Partners, destaca que a presença física ainda é indispensável para atividades como movimentação de materiais, inspeção, recebimento e atendimento 24 h nos armazéns. Contudo, ele mantém todo o setor corporativo da empresa – tanto no Brasil quanto no Peru – em regime totalmente remoto, o que tem gerado ganhos de produtividade e maior disponibilidade das pessoas.
Fundada em 2018 no Peru, a Spare Partners chegou ao Brasil no final de 2019, pouco antes da pandemia. “No Brasil, sempre tivemos trabalho remoto, e isso faz diferença no dia a dia para a produtividade, para a disponibilidade das pessoas nas reuniões e para trocar ideias e fazer acontecer. Também tem feito muita diferença na hora do recrutamento”, explicou Chiarini.
A Buk, empresa de tecnologia, opera um programa chamado “Work from Anywhere”, que permite a mais de dois mil funcionários trabalhar de onde quiserem, baseando‑se na autonomia e na relação entre líder e liderado. “Temos uma pesquisa anual de felicidade organizacional e, na última edição, 86% das pessoas declararam estar felizes com o trabalho remoto”, afirmou Brech.
Para Perdigão, a cultura organizacional não se constrói apenas em momentos informais, como o café da tarde, mas no dia a dia das operações, na agilidade das reuniões e no progresso dos projetos. Brech acrescenta que a cultura se sustenta na confiança desde o início, evitando controles invasivos, enquanto Chiarini ressalta que a coerência entre valores pregados e prática real define a cultura, independentemente de ser online ou presencial.
A volta ao presencial tem reduzido a possibilidade de nômades digitais, sobretudo fora do setor de tecnologia, que ainda mantém tradição de trabalho remoto. Perdigão defende o conceito de “trabalhar de qualquer lugar”, citando o caso de um colaborador da Recarga Pay que fez uma longa viagem de trailer enquanto continuava a exercer suas funções. Brech vê o nomadismo digital como diferencial para atrair talentos, mas observa que áreas como a comercial ainda exigem encontros presenciais com clientes e rituais que demandam a presença física para fechar negócios.
Fonte: Estadão Economia
