A volatilidade recente do petróleo reacendeu um debate relevante no mercado brasileiro de combustíveis: até que ponto o etanol consegue amortecer choques de preços provocados pela alta do petróleo. Em teoria, a presença de um biocombustível produzido no país deveria funcionar como um mecanismo de estabilização, reduzindo a dependência de derivados fósseis importados. Na prática, porém, a dinâmica observada nas bombas indica que esse efeito pode ser mais limitado.
Séries históricas de preços divulgadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostram que o etanol hidratado e a gasolina apresentam forte correlação ao longo do tempo. Quando a gasolina sobe, o etanol tende a acompanhar o movimento; quando a gasolina recua, o biocombustível também costuma ceder. Essa co-movimentação não significa que ambos tenham a mesma estrutura de custos, mas reflete o funcionamento de um mercado em que os dois combustíveis competem diretamente na escolha do motorista.
Desde a liberalização do mercado de combustíveis no início dos anos 2000, os preços são livres em toda a cadeia — da produção à revenda. O valor pago pelo consumidor resulta da combinação entre custos de produção, logística, margens comerciais e tributos. Nesse ambiente, o etanol não é precificado apenas a partir da planilha de custos das usinas, mas também a partir de sua competitividade relativa frente à gasolina.
A referência mais conhecida dessa relação é a chamada regra dos 70%. De forma simplificada, o etanol tende a ser economicamente vantajoso quando custa até cerca de 70% do preço da gasolina, devido ao menor conteúdo energético por litro. Essa comparação, amplamente utilizada por consumidores e analistas, acaba funcionando como uma âncora econômica que conecta os dois combustíveis.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que o etanol costuma acompanhar movimentos da gasolina mesmo quando seus fundamentos agrícolas permanecem relativamente estáveis. Quando a gasolina sobe — por exemplo, em um cenário de elevação das cotações internacionais do petróleo — abre-se espaço para que o etanol também aumente sem perder competitividade relativa.
Essa dinâmica ganha relevância particular em momentos de forte valorização do Brent crude oil, referência global do mercado de petróleo. Como a gasolina é diretamente influenciada pelo preço internacional do petróleo e pela taxa de câmbio, aumentos nessas variáveis tendem a se refletir nas bombas brasileiras.
Em tese, o etanol poderia funcionar como um amortecedor desse choque externo. Sua produção está vinculada principalmente à cadeia da cana-de-açúcar e, cada vez mais, ao etanol de milho, o que lhe confere fundamentos parcialmente distintos do mercado internacional de petróleo.
Ao mesmo tempo, fatores agrícolas também podem alterar a dinâmica de preços. A recente ampliação da oferta de açúcar no mercado internacional tem pressionado as cotações da commodity, levando parte das usinas a direcionar maior parcela da cana para a produção de etanol, hoje relativamente mais rentável. Com o avanço da colheita da nova safra de cana, essa mudança de mix produtivo tende a aumentar a disponibilidade do biocombustível no mercado doméstico, o que — em tese — poderia contribuir para aliviar seu preço ao consumidor.
Entretanto, a forte interdependência de preços observada nas bombas sugere que esse efeito pode ser apenas parcial. Mesmo com maior oferta de etanol, a lógica de mercado tende a manter o biocombustível próximo ao limite competitivo em relação à gasolina. Na prática, isso significa que o etanol pode até cair com o aumento da oferta, mas dificilmente se afastará muito da faixa que preserva a chamada paridade econômica.
Estudos do Conselho Administrativo de Defesa Econômica indicam que o varejo de combustíveis apresenta níveis relevantes de concentração em diversos mercados locais. Em ambientes com menor concorrência, a formação de preços pode refletir não apenas custos, mas também a dinâmica competitiva entre distribuidores e postos.
No curto prazo, portanto, a trajetória dos combustíveis nas bombas continuará fortemente condicionada ao comportamento do petróleo. Se o barril permanecer elevado, o etanol seguirá relevante para a segurança energética do país, mas seu impacto sobre a inflação dos combustíveis dependerá sobretudo da distância de preço que conseguir manter em relação à gasolina — e não apenas do volume produzido na safra.
