Estudo revela que oito em cada dez jovens mães perdem oportunidades de trabalho

Cerca de oito em cada dez jovens brasileiras que engravidaram na infância ou adolescência já deixaram um emprego ou perderam oportunidades profissionais por conta dos cuidados com os filhos, aponta o estudo “Marcas do Tempo: Gravidez na Infância ou Adolescência e seus Impactos na Vida de Mulheres no Brasil”, realizado pela Plan Brasil.

A pesquisa ouviu mais de 1,5 mil mulheres entre 19 e 29 anos, de todas as regiões do país, comparando quem teve gestação precoce com quem nunca engravidou nessa fase. Foram descontados fatores como pobreza e baixa escolaridade prévia para isolar o efeito exclusivo da gravidez.

Mesmo partindo de contextos socioeconômicos semelhantes, as jovens que engravidaram na infância ou adolescência apresentam desvantagens maiores ao longo da vida, tanto na educação quanto no trabalho, na renda, na saúde e no exercício de direitos, em relação ao grupo de comparação.

No âmbito educacional, as mães adolescentes têm 24 pontos percentuais a mais de chance de não estar estudando e 21 pontos percentuais a mais de risco de não concluir o Ensino Médio. O abandono escolar atinge 61% das que engravidaram precocemente, contra 33% das que não passaram por essa experiência.

“A gravidez na infância ou adolescência é um ponto de inflexão que aprofunda desigualdades que já existiam antes mesmo da gestação”, afirma Cynthia Betti, CEO da Plan Brasil, que destaca a necessidade de políticas públicas integradas e orçamentadas para reverter o quadro.

Entre as histórias coletadas, uma atleta de 28 anos, do Sul do país, contou que a descoberta da gravidez interrompeu sua preparação para um campeonato nacional de atletismo. “A sociedade não apoia mulheres mães de forma alguma a seguirem suas vidas. Senti que todos os meus planos acabaram”, relatou de forma anônima.

Outros depoimentos revelam violações de direitos sexuais e reprodutivos, como imposição de DIU sem consentimento e violência obstétrica. Uma jovem de 23 anos, do Centro‑Oeste, descreveu a dor de um parto induzido com comprimido, sem analgesia adequada, e a vulnerabilidade diante de profissionais de saúde.

A pesquisa indica ainda que 59% das mães adolescentes passaram a viver em casamento ou união logo após a primeira gestação, e que a chance de casamento antes dos 16 anos aumentou 19 pontos percentuais. 73 por cento relataram discriminação por causa da gravidez, seja na família, na escola ou em serviços de saúde.

Para romper esse ciclo, a Plan Brasil recomenda a garantia de educação sexual baseada em direitos, acesso facilitado a métodos contraceptivos, universalização de creches com horários compatíveis com estudo e trabalho, combate à violência obstétrica e políticas de primeiro emprego direcionadas a jovens mães.

O estudo foi elaborado pela Akauã Consultoria de Dados, com apoio de organizações parceiras em diferentes regiões e contou com comitê externo de ética de pesquisa da Flacso Brasil.

Fonte: CNN Brasil

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