Os Estados Unidos e a Arábia Saudita assinaram, em 22 de julho, um acordo de cooperação nuclear pacífica que, segundo o Departamento de Energia dos EUA, permitirá amplo acesso de empresas americanas ao programa de energia nuclear saudita. O tratado prevê o desenvolvimento de um programa nuclear civil no reino, embora o texto completo não tenha sido divulgado.
O urânio enriquecido pode servir como combustível para usinas nucleares, mas também pode ser utilizado na fabricação de armas nucleares. Especialistas alertam para o risco de proliferação em uma região já marcada por tensões, sobretudo no contexto da disputa entre EUA, Israel e Irã sobre o programa nuclear iraniano.
Nos acordos de cooperação nuclear pacífica dos EUA, cerca de 50 países recebem transferência de materiais, reatores, tecnologia e realizam pesquisas conjuntas. Até então, apenas Índia e Japão tinham permissão para enriquecer urânio em território nacional, processo essencial tanto para energia quanto para armamentos.
Rosemary Kelanic, diretora do programa para o Oriente Médio do centro de estudos Defense Priorities, afirmou que seria “bastante chocante” se o acordo incluísse a permissão dos EUA para que a Arábia Saudita instalasse instalações de enriquecimento. “Os EUA nunca ajudaram outro país a enriquecer combustível nuclear em seu próprio território”, disse, ressaltando que a capacidade de produzir seu próprio combustível aumenta o risco de desenvolvimento de armas.
O urânio natural contém principalmente os isótopos U‑238 e U‑235, sendo que apenas cerca de 0,7% do material é U‑235, o isótopo físsil. O processo de enriquecimento aumenta a proporção de U‑235 por meio de centrífugas que separam os dois isótopos. O urânio levemente enriquecido (3% a 5% de U‑235) alimenta reatores comerciais, enquanto níveis acima de 20% podem ser usados em reatores de pesquisa e o urânio de grau militar, enriquecido a cerca de 90%, serve para armas nucleares.
O comunicado do Departamento de Energia dos EUA destacou ainda a assinatura de um acordo bilateral de salvaguardas, que estabelece a base legal para uma parceria de décadas avaliada em bilhões de dólares e inclui a não proliferação nuclear como objetivo estratégico. O governo saudita, por sua vez, descreveu o pacto como extensão da cooperação já existente no setor de energia, após a visita do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman a Washington em novembro passado.
Bin Salman declarou à CBS News em 2018 que a Arábia Saudita não planejava adquirir armas nucleares, mas que “sem dúvida, se o Irã desenvolvesse uma bomba nuclear, nós faríamos o mesmo o mais rápido possível”. Apesar das declarações, o reino ainda não possui usina nuclear nem capacidade de gerar energia nuclear, conforme a Associação Nuclear Mundial.
A possibilidade de que a Arábia Saudita passe a enriquecer urânio internamente levanta dúvidas sobre a estabilidade regional e sobre a eficácia dos mecanismos de salvaguarda previstos no acordo. A comunidade internacional acompanha o desenvolvimento do programa, que pode redefinir o panorama da energia nuclear e da segurança no Oriente Médio.
Fonte: BBC News Brasil
