Como Flávio Bolsonaro passou de azarão a alvo de interesse do empresariado

A campanha do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República ganhou, nas últimas semanas, maior aproximação com o empresariado, especialmente entre executivos de alto escalão, que passaram a participar de encontros com o candidato.

Esse movimento contrasta com a reação observada nos primeiros meses após dezembro de 2025, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro confirmou o filho mais velho como seu escolhido para disputar as eleições pelo Partido Liberal (PL).

À época, a candidatura de Flávio não despertou entusiasmo entre empresários de peso na economia, que o viam como azarão na disputa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e entre as opções da direita, incluindo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Enquanto os primeiros encontros do candidato com empresários reuniam poucas dezenas de interessados em dezembro de 2025, os realizados desde o fim de agosto passaram a envolver centenas de pessoas e representantes das maiores empresas brasileiras.

A mudança se acentuou nas semanas que antecederam o primeiro turno, quando as pesquisas passaram a indicar a possibilidade concreta de Flávio superar Lula na votação, fortalecendo a aproximação com o setor produtivo.

O resultado surpreendente do candidato do PL no dia 4, na liderança de votos, reforçou essa aproximação.

A presença de empresários em eventos não significa, necessariamente, apoio: muitos afirmaram querer conhecer melhor o candidato e suas propostas.

Na terça-feira, 13, Flávio esteve em um evento em um grande salão do clube Monte Líbano, tradicional espaço da comunidade árabe, em São Paulo. Participou do Grande Encontro do Associativismo, organizado pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e por outras entidades do setor produtivo.

Presidentes dessas entidades, bem como representantes de outras associações, subiram ao palco, entre eles membros da CNI, Fecomercio, Secovi-SP, Abiquim e Faesp. Representando a comunidade líbano-brasileira esteve Marcos Zarzur, membro do conselho de administração da Eztec e ex-presidente do Monte Líbano.

Também os dois maiores grupos de empresários do país, Esfera Brasil, criado por João Camargo, e Lide, fundado por João Doria, passaram a mobilizar seus afiliados para encontros com Flávio, buscando aproximá-los da campanha.

Esses grupos intensificaram, nos meses recentes, encontros promovidos com a participação de nomes relevantes da campanha do PL na área econômica, como Daniella Marques e Adolfo Sachsida, além de Valdemar Costa Neto, presidente do partido, entre outros.

Mais recentemente, passaram a buscar trazer o próprio candidato para eventos.

Flávio acabou negando participação em dois eventos anunciados pelo Lide, que seriam realizados em Santo André e em São Paulo. Para o encontro na capital paulista, a organização previa a presença de 400 empresários, seis dias antes do segundo turno.

A desistência de Flávio em participar desses eventos foi comunicada poucos dias após o anúncio.

Durante a pandemia, Jair Bolsonaro, então presidente da República, e João Doria, na época governador de São Paulo, protagonizaram diversos embates.

A família Bolsonaro também criticava o empresário e ex-governador, alegando que ele teria se beneficiado da onda bolsonarista para, posteriormente, se opor ao presidente.

Já o Esfera realizou, em setembro, um evento com Lula e cerca de 500 empresários, e tem buscado promover outro parecido com o concorrente, segundo apuração do Estadão. Procurado, o grupo não respondeu até a publicação deste texto.

Um dos empresários mais conhecidos e influentes a ter se encontrado com Flávio nas últimas semanas foi o banqueiro André Esteves, principal acionista do BTG Pactual, uma das empresas de maior valor de mercado com ações cotadas na B3, em torno de 300 bilhões de reais.

Esteves, que também mantém interlocução com o governo federal e ajudou a organizar um evento no Palácio do Planalto com empresários em setembro, esteve em jantar particular com Flávio no mesmo mês. Flávio Bolsonaro também foi um dos destaques do último CEO Conference do BTG.

O economista-chefe do banco, Mansueto Almeida, vinha sendo citado como possível ministro da Fazenda, em um eventual governo Flávio.

Ele foi secretário do Tesouro no governo de Michel Temer, indicado pelo então ministro da Fazenda, e acabou permanecendo no cargo na gestão de Jair Bolsonaro até 2020.

Ao procurar o BTG Pactual, não houve resposta até a publicação deste texto.

Foi, porém, em um evento organizado na residência de um cotado para assumir o Ministério da Fazenda, caso Flávio seja eleito, que ficou evidente a reversão do interesse dos empresários por encontros com o senador.

No dia 27 de agosto, Marcelo Kayath, sócio da QMS Capital e ex-presidente do Credit Suisse no Brasil, que havia apoiado Lula em 2022, recebeu em sua residência nomes importantes do empresariado.

Participaram do jantar presidentes dos três maiores bancos privados do país, além do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto (representando o Nubank) e Christian Egan, da B3. Também estiveram João Camargo (Esfera), Fabio Barbosa (ex-presidente da Natura e da Abril), Fernando Simões (grupo Simpar), José Galló (Renner), Fabio Ermínio de Moraes (Votorantim), Ricard Gerdau (Gerdau) e Pedro Parente (ex-Petrobras, ex-BNDES e ex-ministro).

O interesse recente dos empresários em encontros com Flávio, para conhecer suas ideias e entender como pretende conduzir a política econômica do País, contrasta com a recepção inicial à campanha.

Logo após ser anunciado como candidato, no início de dezembro de 2025, Flávio passou cerca de uma semana em São Paulo, cumprindo agenda na região da Faria Lima, centro financeiro. Nos eventos da ocasião predominavam empresários que já haviam apoiado o governo de Jair Bolsonaro.

O primeiro grande evento ocorreu no UBS, seguido de almoços com cerca de 40 empresários, entre eles Flávio Rocha (Riachuelo), Richard Gerdau (Gerdau), Alexandre Ostrowiecki (Multilaser), Helio Seibel (Duratex) e Mario Araripe (Casa dos Ventos), organizados por Filipe Sabará, ex-secretário de Desenvolvimento Social de São Paulo, que segue na campanha.

Dias depois ocorreu outro almoço, com pouco mais de 20 convidados, na casa de Gabriel Rocha Kanner, da terceira geração da família fundadora da Riachuelo, com participação de Daniella Marques (Legend Capital e ex-presidente da Caixa no governo Bolsonaro), Davide Marcovitch (LVMH), Daniel Mendez (Sapore), Luiz Messici (BMC), Mia Stark (Gazit Brasil), Ricardo Campos (Reach Capital) e Daniel Gonzalez (Fram Capital). Naquele momento, grande parte do empresariado via a candidatura de Flávio como uma decepção, preferindo a opção de Tarcísio de Freitas pela moderação e viabilidade.

Mesmo antes do primeiro turno, a aproximação com o PL gerou debates e polêmicas entre empresários. Em um artigo publicado pela revista Piauí, o cineasta João Moreira Salles, herdeiro do fundador do Unibanco, crítico de que grandes nomes do empresariado estivessem recebendo Flávio em jantares e eventos, argumentou que isso poderia endossar as posições dele. Salles citou nomes de empresários que participaram dessas confraternizações, o que gerou repercussão e respostas de apoio e críticas entre representantes do meio empresarial.

Roberto Rachewsky, fundador do Instituto Estudos Empresariais (IEE) e estudioso da obra de Ayn Rand, ressaltou que sentar-se à mesa com alguém não significa endossar tudo o que esse alguém pratica. Rachewsky afirmou que Flávio não é o pai dele e que não se deve resumir alguém às suas relações com terceiros. Ele também comentou que Flávio não representa necessariamente o conjunto de ações do pai.

Já Ricardo Lacerda, da BR Partners, apoiou a visão de Salles. Em resposta, afirmou que relativizar a conduta de torturadores excede o debate político e sustenta o foco em propostas e responsabilidade fiscal. “Se a vida é o valor fundamental, tolerar quem defende a tortura não é um detalhe a ser compensado por compromissos fiscais”, disse em publicação. Ainda assim, Lacerda apontou que Flávio parece compartilhar, em parte, dos mesmos posicionamentos do pai.

Pedro Parente, ex-presidente da Petrobras e ex-ministro, respondeu ao artigo de Salles dizendo ter ido a um dos eventos e não ter do que se envergonhar — avaliando que foi uma oportunidade de ouvir as ideias de um candidato. Parente afirmou que não votará nele e destacou que suas posições são públicas, conforme a coluna que assina no O Globo. Em junho anterior, escreveu que a polarização representa um obstáculo para um projeto nacional, defendendo espaço para um candidato de conciliação. Não é possível afirmar que Parente seja o único entre empresários que, após participar desses encontros, manifestou elogios ou críticas ao candidato e à falta de propostas mais detalhadas.

Fonte: Estadão Economia

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