Na China, aos 37 anos, Wang Zhuang quase havia perdido a esperança de encontrar uma esposa, até que se deparou com anúncios de agências matrimoniais que prometiam casamentos rápidos e sem a necessidade de um namoro prolongado. As empresas garantiam que apresentariam mulheres recatadas, dedicadas e capazes de administrar a casa, destacando que as moças de Guizhou seriam frugais e viriam de famílias muito pobres, o que, segundo elas, facilitaria a adaptação ao novo lar.
Convencantado com a proposta, Wang viajou para Guiyang, capital da província de Guizhou, no sudoeste da China, na expectativa de encontrar sua “alma gêmea”. Lá, foi apresentado a uma mulher que parecia atender a todos os requisitos anunciados. O casal se encontrou apenas algumas vezes antes de oficializar o casamento, seguindo o modelo de “casamento relâmpago” oferecido pela agência.
Pouco depois da cerimônia, a realidade se revelou diferente. Wang descobriu que sua esposa era, na verdade, uma ex‑apresentadora de karaokê que já havia se casado três vezes, tinha três filhos, sofria de uma grave infecção sexualmente transmissível e estava profundamente endividada. Ela ainda mentiu sobre a idade e sobre a sua história pessoal, deixando Wang em um caos familiar que ainda tenta superar.
O caso de Wang ilustra uma crise demográfica que se arrasta há décadas na China. A política do filho único, vigente até 2015, combinada com a preferência cultural por meninos, gerou um desequilíbrio de gênero de cerca de 30 milhões de homens a mais que mulheres. Esse excesso afeta sobretudo homens próximos dos 40 anos que vivem em cidades menores ou áreas rurais, onde as opções de parceira são escassas.
Nessas regiões, as exigências para os pretendentes são elevadas: possuir carro, casa própria e, muitas vezes, um negócio familiar. Além disso, o tradicional “preço da noiva”, que consiste em um pagamento da família do noivo à da noiva, pode representar um fardo financeiro significativo. Diante desse cenário, agências de encontros surgem oferecendo soluções rápidas, prometendo casamentos em poucos dias.
Entre janeiro de 2024 e março de 2025, promotores chineses investigaram um 546 pessoas por crimes ligados ao setor de agências de casamento. Recentemente, cinco autoridades lançaram uma operação nacional contra o segmento, após relatos de fraudes que envolveram, por exemplo, 128 vítimas e mais de 2,5 milhões de yuans (cerca de R$ 2 milhões) obtidos por meio de garçonetes de karaokê usadas como isca.
Wang pagou à agência um dote de mais de 300 mil yuans (aproximadamente R$ 232 mil) e, somado ao banquete e demais despesas, gastou entre 400 mil e 500 mil yuans. O processo foi documentado em fotos e vídeos divulgados nas redes sociais da empresa, mostrando o casal de mãos dadas sobre um tapete vermelho ao som de música romântica.
Poucos meses após o casamento, cobradores de dívidas começaram a ligar, alegando que a esposa devia dinheiro. Ao investigar o celular dela, Wang encontrou documentos que revelavam um casamento anterior e outros detalhes ocultos. Quando confrontou a mulher, ela ofereceu o divórcio, mas recusou devolver qualquer parte do dote. Ao tentar localizar a agência, Wang encontrou o escritório fechado e sem explicações.
Hoje, Wang dedica seu tempo a alertar outros homens sobre os riscos desses “casamentos relâmpago”. Ele produz vídeos nas redes sociais e relata que, em Guiyang, é difícil encontrar agências dispostas a conversar. Até o dono de uma delas interrompeu a entrevista quando seu sócio chegou. Apesar da dificuldade, o mercado continua em expansão, com anúncios que prometem que “três dias com a apresentação certa podem superar três anos de namoro”.
Fonte: BBC News Brasil
