Caso Eloá: o crime que o Brasil assistiu ao vivo e o drama que revisita a família

A notícia de que Ronickson Pimentel dos Santos, tenente da Rota e irmão de Eloá Pimentel, foi baleado em São Caetano do Sul trouxe de volta um dos casos criminais mais marcantes da história recente do Brasil.

Não porque exista, até aqui, relação conhecida entre os dois episódios.

Mas porque alguns sobrenomes parecem condenados a voltar ao noticiário pela porta da tragédia.

Eloá Cristina Pimentel tinha 15 anos quando foi feita refém pelo ex-namorado, Lindemberg Alves, em outubro de 2008, em Santo André, na Grande São Paulo. O sequestro durou mais de 100 horas. Durante aqueles dias, o Brasil parou diante da televisão para acompanhar, quase em tempo real, uma adolescente mantida sob ameaça dentro de um apartamento.

Foi crime, foi drama familiar, foi operação policial e foi espetáculo midiático.

Tudo ao mesmo tempo.

O país viu imagens, ouviu especialistas, acompanhou entradas ao vivo, esperou um desfecho e tratou a vida de uma menina como se fosse capítulo de novela policial. O problema é que, ali, não havia ficção. Havia uma adolescente em perigo, uma amiga também ameaçada, uma família desesperada e um agressor armado que não aceitava o fim de um relacionamento.

O caso terminou da pior forma.

Eloá foi baleada e morreu. Nayara, amiga dela, também foi ferida. Lindemberg foi preso, julgado e condenado. Mas a condenação, embora necessária, nunca foi capaz de apagar a sensação de que aquele crime deixou perguntas maiores do que o próprio processo judicial.

O Brasil aprendeu alguma coisa com Eloá?

Aprendeu a reconhecer melhor os sinais de controle, ciúme doentio e violência contra a mulher? Aprendeu a não tratar agressor como “homem apaixonado”? Aprendeu a não transformar tragédia em produto de audiência? Aprendeu a proteger a vítima antes de explorar sua história?

A resposta incomoda.

Porque o caso Eloá continua lembrado não apenas pela brutalidade do criminoso, mas também pelo ambiente em que o crime aconteceu. Havia câmeras, curiosos, repórteres, policiais, negociadores e uma multidão acompanhando cada passo. O cárcere privado virou evento nacional. A dor ganhou transmissão.

E esse talvez seja o ponto mais difícil de encarar.

Crimes famosos não ficam famosos apenas pelo que o criminoso fez. Eles ficam famosos também pelo modo como a sociedade olha para eles.

No caso Eloá, o Brasil olhou demais, falou demais e talvez tenha compreendido de menos. Durante anos, a memória pública resumiu a menina ao sequestro, ao apartamento, ao ex-namorado, ao desfecho. Mas Eloá era mais do que vítima. Era filha, irmã, estudante, adolescente. Tinha vida antes do crime. Tinha futuro antes de ser transformada em símbolo.

Agora, quase duas décadas depois, o nome da família volta às manchetes por outro episódio de violência. Ronickson, irmão de Eloá, seguiu outro caminho: tornou-se policial militar. Ainda assim, voltou ao centro do noticiário criminal, desta vez como vítima de um atentado.

É uma coincidência cruel.

Mas também é um lembrete.

Para algumas famílias, o crime não termina quando as câmeras vão embora. Não termina quando sai a sentença. Não termina quando o país muda de assunto. A tragédia continua existindo na memória, nas ausências, nas datas, nas entrevistas, nos arquivos e nas notícias que, anos depois, reabrem feridas que nunca fecharam completamente.

A coluna se chama Crime e Castigo, mas nem todo castigo cabe em uma sentença.

Há o castigo do criminoso, decidido pela Justiça.

E há outro, mais silencioso, que recai sobre quem ficou.

O caso Eloá permanece famoso porque reuniu quase tudo o que o Brasil ainda precisa discutir: violência contra a mulher, falhas de proteção, exposição midiática, fascínio pelo crime e a dificuldade de enxergar a vítima antes que seja tarde demais.

O atentado contra o irmão de Eloá não reabre o caso de 2008.

Mas reabre uma memória.

E essa memória ainda dói porque, no fundo, o Brasil sabe que não assistiu apenas a um crime.

Assistiu a uma menina morrer diante de um país inteiro.

*Amaro Alves foi repórter de polícia até se aposentar, em 2009; vive atualmente em Belém (PA), de onde escreve com exclusividade para oacreagora.com

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