Ataques ucranianos atingem gigante do varejo russo com prejuízo bilionário

A Ucrânia lançou, nos últimos dias, uma série de ataques com drones contra centros de distribuição da Wildberries, a maior varejista online da Rússia, provocando a morte de oito pessoas e prejuízos estimados em cerca de R$ 5,1 bilhões. Os alvos são considerados estratégicos porque, segundo Kiev, são usados para transportar componentes militares destinados à produção de drones e equipamentos de navegação.

No fim de semana passado, dois armazéns foram atingidos: um em Elektrostal, a leste de Moscou, e outro em Kotovsk, na região de Tambov, a aproximadamente 400 km da fronteira ucraniana. Em Kotovsk, sete funcionários que trabalhavam no turno da noite perderam a vida. Outro trabalhador morreu em Elektrostal. Dezenas de pessoas ficaram feridas e mercadorias foram destruídas, elevando o custo total dos danos para mais de cinco bilhões de reais.

Na madrugada de segunda‑feira (20), outro centro de distribuição da Wildberries, localizado em Koledino, ao sul de Moscou, foi atingido. Entre a noite de terça‑feira (21) e a madrugada de quarta‑feira (22), novos ataques atingiram instalações da empresa em Krasnodar e Nevinnomyssk, na região de Stavropol. As autoridades ucranianas afirmam que os alvos são “importantes centros logísticos” que fornecem componentes sujeitos a sanções ao exército russo.

Vendedores individuais relataram perdas devastadoras. Uma mãe de criança com deficiência escreveu nas redes sociais que viu seu negócio desaparecer, alegando prejuízo de um milhão de rublos (cerca de R$ 65 mil). Outra comerciante de roupas para adolescentes informou à BBC que seu estoque, avaliado em 1,4 milhão de rublos (aproximadamente R$ 91 mil), foi destruído, obrigando‑a a suspender envios por semanas. Ambas afirmam não receber indenização e temem novos ataques.

A proprietária da Wildberries, Tatiana Kim, declarou que a empresa “não abandonará” os vendedores. No início de julho, a companhia incluiu nos contratos uma cláusula de força maior que isenta a responsabilidade por danos causados por drones. Pequenas e médias empresas que sofreram perdas receberam descontos temporários nas taxas de envio e, em alguns casos, compensações pontuais, embora os comerciantes considerem as medidas insuficientes.

Desde o início da invasão russa em fevereiro de 2022, a Rússia tem atacado cidades ucranianas com drones e mísseis. Nos últimos meses, as forças russas também visaram armazéns e terminais de carga na Ucrânia, como os centros de triagem da Nova Poshta, depósitos da rede ATB e fábricas da confeitaria Roshen. A escalada de ataques ucranianos a rotas de abastecimento visa isolar a Crimeia e provocar escassez de combustível em várias regiões russas.

Moscou nega que plataformas de comércio eletrônico sejam usadas para suprir o exército, embora vendedores russos relatem a venda de coletes balísticos e de itens que podem ser convertidos em drones. Blogueiros pró‑guerra afirmam que voluntários compram equipamentos militares nessas plataformas, mas não há confirmação independente de que os centros atingidos armazenavam material bélico.

O conflito tem agravado a situação das pequenas e médias empresas russas. Em janeiro, o imposto sobre valor agregado (IVA) subiu de 20% para 22%, e benefícios fiscais foram revogados. Segundo a plataforma de inteligência de negócios Kontur. Fokus, 209 mil empresas encerraram atividades no primeiro trimestre de 2026, um aumento de 9% em relação ao mesmo período de 2025. Apagões de internet e repressão a aplicativos de mensagens também intensificaram as dificuldades.

Especialistas apontam que os ataques aos centros da Wildberries representam “mais um prego no caixão” da economia russa. Ruben Enikolopov, professor da Universidade Pompeu Fabra, afirmou que a estratégia ucraniana de levar a guerra “de volta para dentro da Rússia” pode acelerar o colapso de setores que já enfrentam pressão de sanções e da própria guerra.

Com a continuidade dos ataques, vendedores permanecem incertos quanto ao futuro de seus negócios. Enquanto alguns ainda mantêm reservas financeiras para absorver perdas, a perspectiva de novos bombardeios deixa a maioria apreensiva, temendo que a já frágil cadeia de suprimentos seja ainda mais comprometida.

Fonte: BBC News Brasil

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