O debate sobre quem deve ocupar espaços de representação na Câmara dos Deputados ganhou um novo capítulo — e, desta vez, com nome, contexto e repercussão.
A atuação da deputada Erika Hilton em espaços ligados à pauta feminina reacendeu uma discussão que há algum tempo circula de forma mais silenciosa: até que ponto diferentes agendas podem compartilhar o mesmo espaço institucional sem que uma delas perca foco?
É importante deixar claro, desde o início, que não se trata de negar direitos ou questionar a presença de qualquer grupo no debate público. O avanço das pautas de diversidade é parte de uma sociedade que busca ampliar garantias e reconhecimento.
Mas há uma questão prática que precisa ser enfrentada com seriedade: a função de cada comissão.
A Comissão da Mulher foi estruturada para tratar de problemas concretos e persistentes enfrentados por mulheres no Brasil. E esses problemas não são abstratos — eles têm rosto, endereço e números.
No Acre, por exemplo, mais de 49% dos lares já são chefiados por mulheres, segundo o Censo 2022. Em pouco mais de uma década, esse percentual saltou de 40% para quase metade das casas do estado.
Há também cerca de 30 mil mulheres que criam sozinhas seus filhos — famílias em que não há outra renda, outro suporte, outro adulto dividindo responsabilidades.
Mesmo ocupando mais espaço na chefia dos lares, essas mulheres ainda recebem menos. A diferença salarial média chega a 9,8% em relação aos homens, de acordo com dados de 2025 do Ministério do Trabalho.
E, no campo, o protagonismo feminino também é evidente: em programas públicos como o de aquisição de alimentos, mulheres chegam a representar até 92% dos produtores contemplados em determinadas chamadas.
Diante desse cenário, a preocupação de parte da sociedade não está em excluir, mas em preservar o foco.
A pauta da diversidade possui espaços institucionais próprios, que precisam — e devem — ser fortalecidos. Ao mesmo tempo, a Comissão da Mulher cumpre um papel específico, voltado a demandas que seguem urgentes e mal resolvidas.
Quando diferentes agendas passam a disputar o mesmo espaço, o risco não é a convivência — é a diluição.
E, no caso das mulheres que sustentam famílias, enfrentam desigualdade salarial e dependem de políticas públicas para sobreviver, perder foco significa continuar ficando para trás.
O desafio, portanto, não está em escolher entre inclusão ou representação, mas em garantir que cada espaço cumpra a função para a qual foi criado.
Porque, no fim, representar bem não é ocupar todos os lugares — é garantir que cada lugar funcione para quem mais precisa dele.
*João Marcos Luz é secretário Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos de Rio Branco
