O Acre chegou a 2025 com o maior índice de feminicídios do Brasil e um rastro que vai além das estatísticas: ao menos 111 crianças e adolescentes ficaram órfãos de mãe no estado nos últimos cinco anos em decorrência desse tipo de crime.
Os dados fazem parte de dois levantamentos recentes divulgados às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março. Um relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que o Acre registrou em 2025 a maior taxa de feminicídios do país, com 3,2 mortes para cada 100 mil mulheres. Ao mesmo tempo, levantamento apresentado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-AC) mostra o impacto dessas mortes na vida dos filhos das vítimas.
Em números absolutos, 14 mulheres foram assassinadas em razão de gênero no Acre em 2025. No ano anterior haviam sido oito casos, o que representa aumento de 74,3% em apenas um ano.
A série histórica mostra oscilações nos últimos anos, mas indica crescimento recente no estado:
2021: 12 feminicídios
2022: 9 feminicídios
2023: 10 feminicídios
2024: 8 feminicídios
2025: 14 feminicídios
Além do aumento no número de casos, o índice por população feminina praticamente dobrou no período mais recente. A taxa passou de 1,8 feminicídio por 100 mil mulheres em 2024 para 3,2 em 2025 — mais que o dobro da média nacional, que ficou em 1,43.
Órfãos da violência
Por trás dessas estatísticas estão famílias desestruturadas e crianças que precisam reconstruir a vida após a perda da mãe. Entre 2021 e 2025, ao menos 111 crianças e adolescentes no Acre ficaram órfãos em consequência direta de feminicídios.
A dimensão desse impacto levou o Tribunal de Contas do Estado a reunir representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de integrantes do sistema de Justiça e da rede de proteção social, para discutir a efetiva implementação da Política Estadual de Proteção e Atenção Integral aos Órfãos e Órfãs de Feminicídio.
A política foi instituída pela Lei Estadual nº 4.065, de 2022, e prevê apoio psicossocial, acompanhamento institucional, acesso à educação e auxílio financeiro para crianças e adolescentes afetados.
Durante o encontro, a presidente do TCE-AC, conselheira Dulce Benício, destacou que o impacto do feminicídio ultrapassa a vítima direta.
A dor causada pelo feminicídio não se encerra no ato criminoso. Ela continua na vida dos filhos que permanecem e precisam do amparo do Estado, afirmou.
Segundo a conselheira Naluh Gouveia, muitas das mulheres assassinadas eram responsáveis pelo sustento da família, o que agrava ainda mais a situação dos filhos.
Resposta institucional
A política estadual foi atualizada em 2025 com o objetivo de ampliar sua efetividade. Segundo a Secretaria de Estado da Mulher, quatro pedidos de auxílio financeiro já foram formalizados e estão em análise.
A proposta, segundo o governo estadual, vai além do benefício financeiro. O objetivo é garantir acompanhamento nas áreas de educação, saúde física e saúde mental das crianças afetadas.
Representantes do Ministério Público, da Defensoria Pública e do Judiciário também participaram da reunião. Entre os encaminhamentos definidos está a priorização de processos de guarda das crianças que ficaram sem a mãe.
Para o procurador-geral de Justiça, Oswaldo D’Albuquerque, o enfrentamento ao feminicídio exige ação conjunta das instituições.
Quanto menor o número de feminicídios, menor será também o número de crianças órfãs. Enquanto essa realidade existir, precisamos garantir proteção e amparo a quem permanece, afirmou.
Perfil das vítimas
O relatório nacional sobre feminicídios também aponta um padrão recorrente no Brasil. Entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas eram mulheres negras e metade tinha entre 30 e 49 anos.
A maioria dos crimes ocorre dentro de relações afetivas. Em 59,4% dos casos, o autor é o companheiro atual da vítima, enquanto 21,3% são ex-companheiros.
As mortes também apresentam padrão nos meios utilizados: 48,7% ocorrem com arma branca e 25,2% com arma de fogo.
Municípios menores apresentam risco maior
Outro dado relevante do estudo aponta que municípios com até 100 mil habitantes registram taxas mais altas de feminicídio, com média de 1,7 caso por 100 mil mulheres — acima das cidades médias e grandes.
Segundo os pesquisadores, esses municípios costumam ter menor presença de serviços especializados, como delegacias da mulher, casas abrigo e centros de atendimento, o que dificulta o acesso à rede de proteção.
No Brasil, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025. Desde que o crime passou a ser tipificado em lei, em 2015, mais de 13 mil mulheres já foram assassinadas no país por razões de gênero.
