Como saber se você faz parte de uma seita ou está se tornando fanático?

Você encontra pessoas que parecem entender você, faz amizades e sente que finalmente encontrou seu lugar. Aos poucos, passa a dedicar mais tempo ao grupo, a confiar em seus integrantes e a seguir suas orientações. Até que, um dia, discordar provoca culpa, questionar vira motivo de conflito e se afastar parece impossível.

Essa não é a experiência de todo mundo que participa de um grupo religioso ou de uma comunidade muito unida. Mas ajuda a entender por que algumas relações abusivas podem ser difíceis de reconhecer enquanto acontecem.

O problema não está em ter uma fé intensa ou defender uma causa, mas em perder a liberdade de pensar, tomar decisões e sair do grupo sem sofrer pressão, ameaças ou punições.

A. Hassan, especialista no estudo de seitas e grupos de controle mental, desenvolveu o modelo BITE, que reúne quatro áreas em que o controle pode ocorrer em grupos abusivos: comportamento, informação, pensamento e emoções.

Veja oito sinais que merecem atenção.

O grupo controla sua rotina e suas escolhas. Seus horários, seu dinheiro, seus relacionamentos e até decisões profissionais passam a depender das regras ou da aprovação do grupo.

Só as informações internas são consideradas confiáveis. Notícias, especialistas e pessoas de fora são tratados como mentirosos ou inimigos, enquanto apenas a versão do grupo é aceita.

Questionar vira sinal de deslealdade. Fazer perguntas ou apontar contradições passa a ser interpretado como fraqueza, falta de fé ou traição.

Você se afasta de familiares e amigos. O contato com pessoas de fora é desestimulado ou proibido, especialmente quando elas questionam as regras do grupo.

As exigências nunca parecem suficientes. A cobrança por tempo, dinheiro, trabalho ou dedicação aumenta, e você sente que nunca faz o bastante.

Culpa e medo são usados para manter você por perto. Você ouve que será punido, fracassará ou perderá algo importante se questionar as orientações ou decidir sair.

O líder ou a causa não pode ser questionado. Erros são justificados, contradições são ignoradas e críticas são tratadas como ataques ao grupo.

Quem sai passa a ser tratado como inimigo. Antigos integrantes são humilhados, ameaçados ou excluídos, e o medo de perder os vínculos dificulta a decisão de ir embora.

Esses comportamentos não aparecem apenas em ambientes religiosos. Também podem surgir em grupos políticos, negócios de vendas em rede, programas de coaching, comunidades de bem-estar, relacionamentos e grupos virtuais.

O que importa é como a liberdade de cada pessoa é tratada.

A diferença está no respeito à autonomia. Em uma comunidade saudável, é possível questionar regras e discordar. Já uma seita ou grupo abusivo pode usar ameaças veladas, culpa e medo para dificultar a saída, alimentando a ideia de que quem vai embora perderá a proteção, fracassará ou sofrerá consequências negativas.

Assim, permanecer deixa de ser uma escolha livre e passa a ser uma forma de evitar aquilo que a pessoa teme que aconteça se sair.

É mais fácil reconhecer o fanatismo no lado oposto ao nosso. Mas a dificuldade de aceitar críticas e reconhecer erros pode aparecer em diferentes posições políticas, especialmente quando a defesa de um grupo ou líder se sobrepõe à análise dos fatos.

No vídeo Fanatismo, o que precisa para você admitir que está do lado errado, a psicóloga Carolina Michelini, do canal Clube de Leitura Ler-Se, reflete sobre por que temos tanta dificuldade de reconhecer que podemos estar errados.

Ela recorre a pensadores como Hannah Arendt e Friedrich Nietzsche para explorar essa questão.

O fanatismo não está simplesmente em defender uma ideia com firmeza. O sinal de alerta aparece quando a pessoa rejeita qualquer informação contrária às suas crenças e continua apoiando um grupo ou líder mesmo diante de fatos que colocam suas atitudes em dúvida.

Pertencimento, isolamento e radicalização: À esquerda, o acolhimento do grupo. Ao centro, a solidão de quem discorda. À direita, a tensão do fanatismo político.

Algumas perguntas podem ajudar a perceber se a participação em um grupo está afetando sua autonomia.

Existe algum fato que me faria mudar de ideia?

Quando discordo do grupo, sinto culpa ou medo?

Eu poderia sair amanhã e manter meus relacionamentos, minha renda e minha tranquilidade?

As respostas não determinam, sozinhas, se você está em um grupo abusivo. Elas podem ajudar a identificar situações que merecem uma análise mais cuidadosa.

Converse com alguém de confiança que não faça parte do grupo. Uma perspectiva externa pode ajudar você a enxergar a situação com mais clareza.

Um psicólogo com experiência em abuso psicológico também pode oferecer apoio para avaliar o que está acontecendo e pensar nos próximos passos.

Se houver ameaças, exploração financeira ou violência, procure ajuda e considere denunciar.

Se você teme represálias, não precisa confrontar o líder nem anunciar sua saída antes de pensar na própria segurança e buscar apoio.

Fonte: Terra Saúde

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