Tomar café todos os dias pode criar tolerância, mas quadro é reversível

O consumo diário e frequente de café provoca uma adaptação no cérebro que reduz progressivamente seu efeito estimulante no organismo.

O composto atua bloqueando os receptores de adenosina — substância produzida naturalmente pelo corpo que se acumula ao longo do dia, sinalizando a necessidade de descanso.

Ao ocupar esses receptores, a bebida previne a sensação de cansaço. Porém, diante da exposição constante, o sistema nervoso central reage aumentando a quantidade desses receptores para compensar o bloqueio contínuo, mecanismo que gera a chamada tolerância. Como consequência, a mesma quantidade de cafeína passa a produzir um impacto menor na disposição, levando muitas pessoas a aumentar a dose para obter o alerta desejado.

“O cérebro se adapta e a pessoa precisa de quantidades maiores para perceber o mesmo nível de alerta. Além disso, quem consome café diariamente passa a perceber a bebida menos como um estímulo extra e mais como uma forma de aliviar o cansaço ou a sonolência que aparecem quando o efeito diminui”, explica a nutricionista Giovanna Barreiro, do Hospital Brasília. Reversão da tolerância requer pausa e redução gradual. Para recuperar a sensibilidade do cérebro sem sofrer com os efeitos colaterais da interrupção súbita, especialistas recomendam o protocolo de “pausa estratégica”.

A interrupção abrupta da substância costuma desencadear dor de cabeça, fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração, sintomas de abstinência que costumam durar entre dois e sete dias.

“O protocolo consiste em diminuir a dose ao longo de uma ou duas semanas para minimizar a abstinência. Depois, zera-se o consumo por um período, em média de sete dias, e volta-se a tomar com doses menores e mais espaçadas”, orienta o médico cardiologista Marcos Cairo, do Hospital Samaritano Higienópolis, da Rede Américas, em São Paulo. Segundo Cairo, a literatura médica aponta uma janela de sete a 14 dias sem cafeína para recuperar boa parte da sensibilidade original dos receptores de adenosina, podendo levar até um mês para normalização completa.

Origem do composto não altera a velocidade de adaptação. Do ponto de vista farmacológico, o desenvolvimento da tolerância está associado à quantidade total ingerida e à frequência de uso, e não ao tipo de bebida ou suplemento.

O cérebro responde da mesma forma a 400 mg de cafeína provenientes de café expresso, energético ou termogênico. O expresso costuma fornecer de 60 a 80 mg de cafeína por dose, enquanto energéticos variam de 80 a 150 mg por lata e termogênicos podem concentrar entre 200 e 300 mg por porção. Outro fator central na resposta à substância é a genética.

A enzima CYP1A2, produzida no fígado, é responsável por metabolizar cerca de 95% da cafeína no organismo.

Pessoas com variações genéticas que favorecem metabolização rápida eliminam a substância em duas a quatro horas. Já quem possui a metabolização lenta pode levar oito horas ou mais para processar a mesma quantidade, apresentando maior propensão a tremores, ansiedade, palpitações e prejuízos ao sono.

Impacto no sono e limites de consumo seguro. A meia-vida da cafeína no corpo é de cinco a seis horas, o que significa que metade da dose ingerida continua circulando na corrente sanguínea após esse intervalo.

“Se a pessoa toma um café às 16 horas, por volta das 22 horas metade dessa dose ainda está ativada no sangue. Quando a cafeína é metabolizada, a adenosina acumulada encaixa novamente nos receptores e o sono vem de forma superficial e fragmentada”, alerta Cairo.

A orientação é consumir a última dose de 6 a 8 horas antes de deitar. Para adultos saudáveis, o consumo de até 400 mg por dia — cerca de quatro xícaras de café coado — é considerado seguro pelas diretrizes de saúde, com no máximo 200 mg em uma única dose.

Gestantes devem limitar a ingestão a 200 mg diários, pois a meia-vida da substância pode ultrapassar 15 horas no último trimestre de gravidez.

“A cafeína amplifica um bom dia, mas não compensa uma noite ruim de sono”, reforça o cardiologista.

Fonte: Metrópoles Saúde

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