Alguém que chora com frequência, se afasta dos amigos ou não tem energia para enfrentar o dia. Essa combinação de comportamento pode ser sinal da chamada “depressão sorridente”, condição em que a pessoa aparenta estar bem, mas por dentro sente desânimo e tristeza. “[O termo] significa parecer feliz por fora, enquanto, por dentro, você se sente deprimido e desanimado”, explica Olivia Remes, pesquisadora de saúde mental da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 322 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, um transtorno caracterizado por tristeza persistente, perda de interesse e prazer, que afetam trabalho, relacionamentos, sono e rotina.
Entretanto, até 40% dos casos apresentam forma atípica, com sintomas que fogem do padrão clássico. Em vez de perder o apetite ou dormir menos, a pessoa pode comer ou dormir mais que o habitual, e o humor pode melhorar temporariamente diante de situações positivas.
Muitos pacientes recorrem à camuflagem, tentando ocultar emoções para se adaptar ao convívio social. “Elas podem achar que seus sintomas são apenas consequência de uma vida agitada e estressante”, afirma Remes. Algumas reconhecem a dificuldade, mas evitam que outros percebam, sobretudo perfeccionistas com forte senso de responsabilidade.
O medo do estigma e a preocupação com julgamentos alhe podem levar à negação. “Elas têm expectativas elevadas em relação a si mesmas e podem não querer admitir, nem para si nem para os outros, que estão enfrentando dificuldades”, acrescenta a pesquisadora.
Especialistas alertam que o esforço para manter as aparências aumenta o risco de isolamento. “A depressão nos isola e nos faz sentir sozinhos. Muitas vezes, um dos melhores antídotos para o desânimo é se conectar com outras pessoas”, diz Barney Dunn, professor e psicólogo clínico da Universidade de Exeter.
Entre os sinais iniciais estão a perda de prazer em atividades antes apreciadas, sensação de peso nos braços ou pernas (“paralisia de chumbo”), cancelamento frequente de compromissos, necessidade de mais sono ainda que a fadiga persista, sensibilidade exagerada a críticas ou rejeição, comportamento excessivamente engraçado ou prestativo e pensamentos recorrentes de inutilidade ou vazio.
O próprio termo “depressão sorridente” recebe críticas. Remes ressalta que, embora ajude a nomear a experiência, pode simplificar demais: “A palavra ‘sorridente’ faz pensar em alegria e felicidade, mas a característica central dessa condição é, na verdade, a falta de esperança, o vazio e a sensação de não ter valor”. Dunn recomenda compartilhar, aos poucos, o que se sente com alguém de confiança, pois “muitas vezes, as pessoas se surpreendem ao perceber que isso pode fortalecer os vínculos, ajudá‑las a se sentir conectadas e a entender que não são as únicas a se sentir assim”. Ele também orienta a procurar um médico, pois “conversar, usar medicamentos [antidepressivos] e receber intervenções sociais podem ser medidas eficazes”.
Em caso de sinais de alerta relacionados ao suicídio, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito 24 h pelo telefone 188, chat e e‑mail. Jovens de 13 a 24 anos podem usar o chat “Pode Falar”, da Unicef. Em emergências, recomenda‑se ligar para os Bombeiros (193), Polícia Militar (190) ou Samu (192). Também é possível buscar apoio nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24 h, ou consultar o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) da Saúde Mental para localizar serviços gratuitos. Para quem perdeu alguém por suicídio, a Associação Brasileira dos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (Abrases) oferece assistência e grupos de apoio.
Fonte: G1 Saúde
