Cirurgia bariátrica: estudos revelam impactos no envelhecimento

Por muito tempo, o sucesso do tratamento da obesidade foi medido principalmente pela perda de peso obtida. Quanto maior a redução do peso corporal, melhor era considerada a resposta ao tratamento. Hoje sabemos que isso representa apenas uma parte dos benefícios esperados.

Mesmo sem passar por grandes intervenções, o corpo humano não é estático. À medida que envelhecemos, sofremos perdas naturais significativas. Massa muscular, força, qualidade óssea e capacidade funcional são importantes para a saúde e para manter a autonomia ao longo da vida.

Por isso, é fundamental avaliar os resultados da perda de peso de forma integrada e em longo prazo.

Afinal, o que acontece com o organismo anos depois?

Nossos estudos, no Serviço de Atendimento Integral ao Portador de Obesidade (SAI-Ob), do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), indicam que a resposta é bem mais complexa do que a balança revela.

Uma das preocupações é que a própria redução de gordura corporal possa levar também à perda muscular.

Pessoas com obesidade têm mais massa muscular total do que aquelas com peso normal, embora a infiltração de gordura nas fibras musculares possa comprometer sua funcionalidade.

Quando o emagrecimento ocorre de forma rápida e expressiva, cerca de 30% do que é perdido corresponde à massa magra.

Mas qual é o efeito disso sobre a qualidade do músculo?

Em um estudo nosso, publicado no periódico Obesity Surgery, avaliamos 39 pacientes entre dois e cinco anos após a cirurgia bariátrica e metabólica.

O procedimento, bypass gástrico em Y de Roux, é reconhecido por promover perda de peso e melhorar a saúde metabólica.

Os casos foram comparados com 21 indivíduos não submetidos à cirurgia, semelhantes em idade, sexo e IMC.

Vimos que, de fato, existe uma associação entre maior perda de peso alcançada e menor quantidade de massa e força muscular.

No entanto, isso não se refletiu em pior capacidade funcional. Não houve diferenças entre os grupos nas avaliações de massa muscular, força de preensão manual e desempenho funcional.

Todos estavam dentro dos parâmetros de normalidade esperados para a idade e o sexo.

Ao mesmo tempo, o grupo submetido à cirurgia apresentava menor gordura abdominal e um perfil cardiometabólico mais favorável. Possuíam valores mais baixos de pressão arterial e melhor perfil glicêmico (glicemia de jejum e hemoglobina glicada) e lipídico (colesterol total, LDL e triglicerídeos).

Não basta avaliar apenas se houve perda de peso. É fundamental investigar também a função muscular.

Outro resultado chamou a nossa atenção: os pacientes operados apresentaram piores indicadores de qualidade de vida.

Bons resultados clínicos após a cirurgia não significam necessariamente que todas as dimensões da vida tenham melhorado na mesma proporção. Aspectos psicológicos, sociais, comportamentais e relacionados à própria percepção de saúde também precisam fazer parte do acompanhamento.

Os ossos também precisam se adaptar a uma grande redução do peso corporal. Após a cirurgia, mudanças na absorção de nutrientes, no ambiente hormonal, na carga mecânica sobre o esqueleto e na massa muscular podem influenciar o metabolismo ósseo. Essas alterações costumam ocorrer sem sintomas.

Para investigar essa questão, realizamos outro estudo, publicado recentemente na revista Obesity. Analisamos diferentes dimensões da saúde óssea de 39 pacientes entre dois e cinco anos após a cirurgia bariátrica e metabólica.

Um dos resultados mais interessantes foi que o exame convencional (densitometria óssea) não encontrou diferenças significativas entre os pacientes operados e o grupo controle em acompanhamento clínico. Contudo, quando avaliamos os ossos com uma técnica mais detalhada, observamos alterações importantes em características microscópicas da estrutura óssea.

A diferença entre os resultados é relevante, pois a resistência de um osso não depende apenas da quantidade de mineral presente. Sua organização interna contribui para determinar a qualidade e a resistência.

A tomografia computadorizada quantitativa periférica de alta resolução (HR-pQCT) permitiu avaliar, em três dimensões, a densidade e a microarquitetura do osso. Também observaram-se mudanças em biomarcadores relacionados ao metabolismo ósseo e níveis mais baixos de vitamina D. Isso indica maior atividade de remodelação — o processo de formação e reabsorção do tecido ósseo.

A maioria dos pacientes não fazia suplementação de cálcio e vitamina D, o que reforça a importância do acompanhamento nutricional e laboratorial após a cirurgia.

Isso não significa que toda pessoa submetida à cirurgia bariátrica e metabólica desenvolverá osteopenia ou osteoporose. Nenhum dos participantes avaliados relatou histórico de fratura. O principal alerta é que nem sempre a balança ou mesmo um exame convencional é suficiente para entender o que está acontecendo no organismo.

Outra questão que costuma preocupar quem passa por esse tipo de procedimento é a recidiva da obesidade. Ela é relativamente comum ao longo dos anos, mas não deve ser interpretada simplesmente como sinal de que a cirurgia deu errado.

Em outros estudos nossos, avaliamos 30 a 40 pacientes submetidos à cirurgia bariátrica e metabólica há 11 anos. Mesmo entre aqueles que recuperaram uma quantidade expressiva de peso, parte dos benefícios metabólicos e inflamatórios da cirurgia permaneceu.

Em comparação com pessoas com obesidade e IMC semelhante que não haviam passado pela cirurgia, esses pacientes apresentaram menor glicemia e níveis mais baixos de triglicerídeos, além de maior HDL-colesterol. Também apresentaram um perfil inflamatório mais favorável, caracterizado por menores níveis de IL-6 e maiores de adiponectina.

Por outro lado, entre pacientes que haviam interrompido o acompanhamento médico após a cirurgia, o maior reganho de peso esteve associado a piores indicadores de qualidade de vida e à maior frequência de comportamentos alimentares desordenados.

A atividade física também parece ter um papel importante. Em um estudo do nosso grupo, o nível de atividade física foi avaliado objetivamente por acelerometria, com um sensor de movimentos. Pacientes com mais de cinco anos de cirurgia e menor reganho de peso registraram maior prática de atividades físicas de intensidade moderada a vigorosa e realizaram mais passos por dia, enquanto níveis mais baixos de atividade física e maior tempo sedentário foram mais frequentes entre aqueles com maior reganho de peso.

Conjuntamente, esses achados reforçam que os resultados a longo prazo da cirurgia não dependem apenas do peso corporal, mas também do acompanhamento contínuo, do comportamento alimentar, da prática de atividade física e de outros aspectos da saúde.

As cirurgias bariátricas e metabólicas modernas consolidaram-se no final dos anos 1980 e se expandiram a partir de 1990. Em consequência, um número crescente de pessoas submetidas a esses procedimentos está chegando à terceira idade. Assim, surge a pergunta: como essas pessoas envelhecem?

No serviço do SAI-Ob-HUPE-UERJ, estruturamos uma linha de pesquisa dedicada justamente a essa questão. Estamos estudando pessoas com 65 anos ou mais que passaram por bypass gástrico há pelo menos dez anos. Vamos comparar esse grupo com idosos que vivem com obesidade e têm indicação para cirurgia, e com idosos com peso considerado normal. Avalia-se doenças crônicas, função vascular, perfis metabólico e inflamatório, composição corporal, força muscular, desempenho físico, saúde óssea e qualidade de vida. Essa perspectiva é especialmente relevante agora que novos medicamentos passaram a promover perdas de peso expressivas. As chamadas canetas para emagrecer abriram uma nova frente de tratamento, além de novas perguntas sobre os efeitos do emagrecimento ao longo da vida.

Não se trata de estabelecer uma competição entre cirurgia e medicamentos. Cada abordagem tem indicações, benefícios, limitações e possíveis efeitos adversos e, em determinadas situações, podem ser complementares. Ainda não dispomos de tempo suficiente de acompanhamento para saber como as pessoas que usam esses medicamentos envelhecerão. É justamente aí que estudos longitudinais ganham importância. Ao acompanhar pessoas por muitos anos, podemos entender melhor o que acontece após uma expressiva perda de peso e identificar quais fatores estão associados a um envelhecimento com mais ou menos saúde e qualidade de vida, independentemente da estratégia utilizada para emagrecer.

Nossos resultados até agora mostram que o acompanhamento não pode se limitar ao número na balança. É preciso observar força e funcionalidade, saúde óssea, controle das doenças crônicas, alimentação e qualidade de vida. Exercícios físicos com resistência e acompanhamento nutricional também podem contribuir para preservar massa e força muscular ao longo do tempo.

À medida que a população envelhece e surgem novas formas de tratar a obesidade, entender essas diferentes trajetórias torna-se essencial. O objetivo do tratamento não deve ser apenas perder peso, mas ajudar as pessoas a envelhecer com autonomia e qualidade de vida.

As pesquisas que embasam este artigo foram financiadas pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A divulgação também contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes).

Karynne Grutter Lopes recebe financiamento da FAPERJ. Luiz Guilherme Kraemer Aguiar é bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e Cientista do Nosso Estado da FAPERJ. Alessandra da Rocha Pinheiro Mulder, Jorge Eduardo da Silva Soares Pinto e Paulo Roberto Falcão Leal não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

Fonte: G1 Saúde

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