As mulheres representam cerca 63% dos afastamentos do trabalho por transtornos mentais no Brasil em 2025, segundo dados do Ministério da Previdência Social.
Dos mais de 559 mil benefícios concedidos por esse motivo, 353 mil foram destinados a trabalhadoras, evidenciando a predominância feminina nos afastamentos.
Em entrevista ao Live CNN nesta sexta-feira (21), Dorli Kamkhagi, doutora em Psicologia Clínica pela PUC‑SP e colaboradora do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, apontou que o adoecimento feminino tem raízes socioculturais profundas, descrevendo uma “cultura e história psicoemocional que faz com que a menina, quando nasce, já seja vista de outro jeito”.
Segundo a especialista, as mulheres são condicionadas desde cedo a assumir o papel de cuidadoras – do lar, dos filhos ou de pais idosos – acumulando responsabilidades que se somam às exigências profissionais, gerando culpa e sensação de não ser boa o suficiente.
Kamkhagi explicou que essa culpa constante, presente em mulheres de todas as classes sociais, alimenta quadros de burnout, depressão e ansiedade, reforçando que “as mulheres de todas as camadas vivem a mesma coisa”.
Em 2021, cerca de 188 mil pessoas foram afastadas do trabalho por questões de saúde mental. Em 2025, esse número saltou para 559 mil, um aumento de 198% em cinco anos. No mesmo ano, os afastamentos entre homens totalizaram 206 mil casos, evidenciando disparidade de gênero.
A realidade das mães solo agrava ainda mais o cenário, pois a responsabilidade exclusiva pelo cuidado dos filhos intensifica o esgotamento e pode levar a afastamentos prolongados, gerando elevados custos previdenciários e sociais.
A especialista também destacou a vulnerabilidade de adolescentes, que enfrentam violências, bullying e pressões das redes sociais, e defendeu que as políticas públicas considerem as mulheres desde a gestação, passando pela infância e adolescência.
Dados do Ministério da Saúde mostram que os transtornos mentais ligados ao trabalho entre mulheres cresceram 14 pontos percentuais em dez anos, passando de 58% em 2014 para 72% em 2024, e que a longa espera por atendimento no sistema público é um obstáculo crítico.
Kamkhagi reconheceu iniciativas positivas, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), mas pediu ampliação dessas estruturas e maior oferta de creches de qualidade, para que mães possam trabalhar ou cuidar de familiares sem acumular angústia, concluindo que “essa mulher que segura a família, que ajuda o país de forma enorme, precisa e tem que reivindicar esses direitos”.
Fonte: CNN Brasil Saúde
