O infarto agudo do miocárdio permanece como a principal causa de morte no Brasil, com estimativas de 300 mil a 400 mil casos ao ano e uma mortalidade que atinge um em cada cinco a sete pacientes. Os avanços da cardiologia permitem que, quando o atendimento é rápido e o paciente segue as orientações médicas, a sobrevida com boa qualidade de vida seja possível.
Entretanto, a alta hospitalar não representa o fim do tratamento. O infarto é a manifestação de uma doença que continua presente nas artérias coronárias, exigindo cuidados permanentes para evitar novos eventos. “Após o tratamento do infarto, a predisposição do paciente para novos eventos continua existindo”, adverte o cardiologista Pedro Lemos, diretor de Cardiologia do Einstein Hospital Israelita. “É preciso reconhecer essa predisposição e trabalhar para reduzir o risco de recorrência”.
A obstrução de uma artéria coronária impede a passagem de oxigênio ao músculo cardíaco. Quanto maior o tempo de bloqueio, maior o risco de sequelas e de morte. Por isso, ao sentir dor no peito ou outros sinais de alerta, a pessoa deve buscar atendimento imediato, pois poucas horas podem determinar a diferença entre recuperação plena e dano permanente.
A doença costuma se desenvolver ao longo dos anos, quando placas de gordura se acumulam nas paredes das artérias – processo conhecido como aterosclerose. A ruptura dessas placas gera coágulos que podem interromper totalmente o fluxo sanguíneo. “Em alguns pacientes, essas placas sofrem um processo de instabilização, com formação de coágulos, provocando o fechamento completo da artéria e o infarto”, explica o cardiologista intervencionista Guy Fernando de Almeida Prado Junior, também do Einstein.
Na maioria dos casos, o infarto é tratado com angioplastia coronária, procedimento que utiliza cateteres para desobstruir a artéria e implantar um stent metálico que mantém o vaso aberto. Embora os stents atuais sejam seguros e eficazes, o sucesso da intervenção não elimina a necessidade de terapia medicamentosa, sobretudo nas primeiras semanas, quando o risco de novos coágulos permanece elevado.
A estratégia padrão inclui a combinação de ácido acetilsalicílico (AAS) com um inibidor mais potente das plaquetas, como prasugrel ou ticagrelor. Essa dupla reduz a formação de coágulos, mas o uso simultâneo pode aumentar o risco de sangramentos, o que motivou estudos sobre a retirada precoce do AAS.
O estudo NEO‑MINDSET, liderado por Pedro Lemos e Guy Prado e publicado em agosto de 2025 no New England Journal of Medicine, avaliou 3,4 mil pacientes de 50 centros brasileiros. Os resultados mostraram que a retirada do AAS logo após a angioplastia não compensa os riscos durante o primeiro mês, período ainda crítico para a formação de trombos. “Embora a estratégia esteja associada a menos sangramentos, esse período continua sendo crítico para a formação de coágulos, tornando indispensável a proteção oferecida pela combinação dos medicamentos antitrombóticos”, ressalta Prado.
Uma análise subsequente, publicada na revista Euro Intervention, investigou pacientes submetidos a angioplastias mais complexas, com múltiplos stents ou lesões extensas. Mesmo nesses casos, a retirada precoce do AAS reduziu sangramentos, mas não substituiu de forma segura o esquema duplo nas primeiras semanas. “Nossos resultados reforçam a recomendação das diretrizes internacionais: é realmente necessário manter o tratamento por, pelo menos, um mês”, destaca o diretor do Einstein.
Assim, a adesão rigorosa ao uso combinado de antiagregantes nas primeiras quatro a seis semanas é fundamental para prevenir recorrência. O acompanhamento médico regular permite ajustar a terapia e monitorar possíveis complicações, garantindo que o benefício do stent seja mantido.
Além da medicação, o controle dos principais fatores de risco cardiovascular – diabetes, hipertensão, colesterol alto, tabagismo, obesidade e sedentarismo – é essencial. A prática regular de atividade física, a manutenção de peso saudável e uma dieta equilibrada reduzem a pressão arterial, o colesterol e a glicemia, contribuindo para a prevenção secundária. “Um tratamento adequado do evento agudo somado a uma prevenção a longo prazo garante sobrevida com excelente qualidade de vida”, conclui Pedro Lemos.
Fonte: Terra Saúde
