Mais de quatro em cada cinco produtos comercializados para crianças pequenas nos Estados Unidos são classificados como ultraprocessados, segundo pesquisa que analisou 2.783 itens em prateleiras de supermercados. Quase metade desses alimentos também não cumpre ao menos um dos parâmetros nutricionais estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a primeira infância.
De acordo com o Modelo de Perfil Nutricional e de Promoção da OMS, alimentos destinados a crianças de seis a 36 meses não devem conter açúcar adicionado, adoçantes artificiais ou sucos de frutas concentrados, e precisam ter teor limitado de gorduras saturadas e sódio.
“Queríamos saber o que os pais viam quando iam ao supermercado”, explicou a pesquisadora principal, Erin Hudson, do departamento de pediatria do Children’s Hospital Los Angeles. “A resposta é que mais de 80% dos produtos são ultraprocessados”, acrescentou. “Muitos deles têm alto teor de açúcar e sódio, mas os pais não conseguem perceber isso apenas olhando para as embalagens”.
Os pesquisadores identificaram que os itens que não atendiam ao critério de açúcar da OMS tinham quatro vezes mais chance de serem ultraprocessados. Aproximadamente um quarto dos alimentos apresentava teor de sódio acima do recomendado, e alguns continham quantidades elevadas de gordura e calorias, inclusive produtos rotulados como orgânicos.
Exemplos de alimentos com alto teor de açúcar incluem sachês de frutas e barras de aveia. Produtos ricos em sódio e gordura englobam tigelas de macarrão com queijo prontas para consumo e salsichas de peru. Já os salgadinhos de manteiga de amendoim combinam sódio, gordura e calorias em níveis preocupantes.
Jane Houlihan, diretora de pesquisa da Healthy Babies Bright Futures, destacou que o problema não está apenas nos ingredientes nocivos, mas no que esses alimentos substituem na dieta infantil. “Uma criança que consome principalmente snacks de frutas, iogurte adoçado, biscoitos e barrinhas de cereais provavelmente ingerirá menos grãos integrais, vegetais, feijões e outros alimentos nutritivos”, afirmou em e‑mail.
Os primeiros mil dias de vida são decisivos para o desenvolvimento cerebral e para a saúde ao longo da vida, segundo a Academia Americana de Pediatria. Nesse período, as preferências gustativas são consolidadas, e a ingestão excessiva de produtos ultraprocessados pode direcionar escolhas futuras para açúcar e aromatizantes artificiais em detrimento de alimentos naturais.
Marissa Burgermaster, professora assistente de ciências nutricionais da Universidade do Texas em Austin, recomendou que os pais ofereçam aos filhos os mesmos alimentos saudáveis consumidos pela família, apenas adaptando a consistência. “A indústria comercializa esses produtos como se fossem pensados para a saúde das crianças, mas isso não corresponde à realidade”, alertou.
A Food and Drug Administration (FDA) propôs, para 2025, um sistema obrigatório de rotulagem frontal que classifica alimentos embalados como “baixo”, “médio” ou “alto” em açúcar adicionado, sódio e gordura saturada. No entanto, a proposta ainda não se aplica a produtos destinados a crianças menores de quatro anos. A Consumer Brands Association, que representa a indústria, defendeu que oferece opções seguras, acessíveis e convenientes para as famílias.
Para conduzir a pesquisa, Hudson e sua equipe fotografaram alimentos destinados a crianças de seis a 36 meses em 21 supermercados de Austin, Texas, excluindo fórmulas infantis, bebidas e purês. Os rótulos foram avaliados quanto a açúcar, sal, gorduras, calorias e aditivos, e os produtos foram classificados segundo o sistema NOVA, que divide os alimentos em quatro categorias de processamento.
Elizabeth Dunford, professora assistente adjunta de nutrição da Universidade da Carolina do Norte, ressaltou que 71% dos alimentos analisados continham como principal ingrediente um ou mais aditivos, e não frutas ou vegetais. “O intestino dos bebês ainda não está totalmente desenvolvido para processar esses aditivos da mesma forma que o estômago de um adulto”, explicou.
Até que normas federais mais rígidas sejam adotadas, os especialistas recomendam que os pais leiam atentamente os rótulos nutricionais e as listas de ingredientes. “Não se pode presumir que um produto rotulado como ‘100% fruta’ seja saudável. Verifiquem a presença de açúcar adicionado, gorduras saturadas e aditivos”, concluiu Hudson, orientando a devolver à prateleira os itens que não atendam a esses critérios.
Fonte: CNN Brasil Saúde
