Um exame de sangue capaz de detectar sinais de câncer antes dos sintomas identificou quatro vezes mais casos da doença do que as estratégias convencionais de rastreamento, segundo um estudo internacional. A pesquisa, realizada no Reino Unido, acompanhou quase 143 mil pessoas atendidas pelo Serviço Nacional de Saúde (NHS).
Os resultados foram apresentados nas sessões de prevenção, redução de risco e genética da reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), realizada em junho nos Estados Unidos. O estudo integra uma série de pesquisas que buscam ampliar o diagnóstico precoce por meio de exames menos invasivos.
A pesquisa, denominada NHS‑Galleri, incluiu voluntários entre 50 e 79 anos sem sintomas sugestivos de câncer. Eles foram divididos em dois grupos: um realizou anualmente um exame de sangue para detectar fragmentos de DNA tumoral circulante (ctDNA) e o outro seguiu apenas os exames de rastreamento recomendados. Os participantes foram acompanhados por três anos.
Em três anos de acompanhamento, foram diagnosticados 3.637 casos de câncer no grupo que fez a biópsia líquida e 3.400 no grupo controle. Dentre os que usaram a biópsia líquida, 1.173 tumores foram identificados antes do diagnóstico, contra 290 no grupo controle, quadruplicando a detecção precoce.
A estratégia também mudou o estágio dos tumores: houve aumento de 16% nos diagnósticos nos estágios um e dois e crescimento de 19% nos estágios um a 3, enquanto os casos em estágio quatro diminuíram 14%.
A precisão do exame foi alta, com especificidade de 99,55%. Quando o teste apontou um sinal de câncer, identificou corretamente o provável órgão de origem em 92,5% das vezes, considerando as duas principais hipóteses diagnósticas.
A oncologista clínica Janaína Pontes, do Einstein Hospital Israelita, destacou que o rastreamento atual ainda é limitado e que a possibilidade de detectar alterações antes do tumor aparecer representa “uma mudança muito importante”.
Apesar do nome, a biópsia líquida não retira tecido tumoral. Ela procura pequenas quantidades de DNA liberadas pelas células cancerígenas na corrente sanguínea.
Os novos testes ainda não substituem exames consolidados como mamografia, colonoscopia, teste de HPV e tomografia de baixa dose para fumantes, que continuam recomendados por comprovarem redução da mortalidade. A tecnologia integra a chamada medicina de precisão, que combina predição, prevenção, personalização e participação do paciente no tratamento.
A biópsia líquida já está sendo estudada para monitorar pacientes após cirurgia, acompanhar a resposta ao tratamento e orientar mudanças terapêuticas, ampliando seu potencial ao longo da jornada do câncer.
Os dados ainda são recentes e não há evidência de que pacientes deixem de fazer exames tradicionais em função da biópsia líquida, que deve ser vista como complemento às estratégias já estabelecidas.
Fonte: Terra Saúde
