Renee Wong e April Lee, creditadas pelo arquivo pessoal /@psychottieuniverse e @reneejwong, da BBC News Brasil em Londres, se conhecem desde os 12 anos.
Em 2026, quando ambas completam 29 anos, celebram dois anos de casamento: dividem moradia, conta bancária e projetos de futuro, mas não compartilham a cama nem se consideram um casal romântico.
A relação delas exemplifica a chamada parceria platônica de vida, um tipo de união ainda pouco estudado pela psicologia. “Por que reservar esse lugar tão precioso para um parceiro romântico que ainda não apareceu? Se essa pessoa aparecer, ótimo, mas por que guardar esse espaço para alguém que ainda não está aqui, quando a pessoa que já se dedica a mim está bem na minha frente?”, questiona Renee, 29 anos, ao falar da esposa April.
As duas se encontraram numa escola em Singapura, onde a conexão foi imediata. Passavam todo o tempo juntas – depois das aulas, nas casas uma da outra. Aos sábados, estudavam em conjunto. Aos domingos, iam à igreja. “Literalmente sete dias por semana juntas”, recorda Renee.
Sem irmãos, elas preencheram o vazio uma da outra, tornando‑se quase irmãs. As famílias também se aproximaram, celebrando Natal e Ano Novo Lunar juntas, formando uma espécie de família estendida. Quando a vida as levou a continentes diferentes – Renee para Los Angeles e April para Singapura – a amizade permaneceu.
A pandemia intensificou a comunicação: as duas conversavam até 12 horas por dia, apesar dos fusos horários. Nesse período, Renee percebeu que April era a pessoa que mais amava no mundo, embora não de forma romântica. “Se é ela que eu quero ao meu lado na hora de morrer, por que não estou vivendo com ela?”, afirmou.
Com as fronteiras reabertas, planejaram a mudança e, no início de 2024, oficializaram a união em Los Angeles. Ambas são bissexuais, mas não sentem atração física uma pela outra. “A gente sempre fala que tem uma péssima química física”, ri Renee, explicando que o vínculo se assemelha ao de irmãs.
Para elas, o casamento não foi um arranjo prático disfarçado de romance, nem o contrário. Foi o reconhecimento de que a relação mais importante já existia há mais de uma década e merecia o status que a sociedade costuma reservar ao amor romântico.
Financeiramente, tratam‑se como parceiras: “É tudo no mesmo pote”, diz April. Quando April acumulou dívida no cartão de crédito, Renee quitou o valor integralmente, sem alarde, para que o problema não pairasse sobre ambas.
Embora não descartem a possibilidade de namorar outras pessoas, não buscam ativamente novos relacionamentos. “A base afetiva que construímos aumentou o nível de exigência. Não estamos tentando preencher um buraco”, afirma Renee, que destaca que a parceria platônica lhes oferece apoio emocional e prático.
A psicóloga Maria Cristina Antunes, doutora em psicologia social, explica que a “parceria platônica de vida” ainda carece de pesquisas amplas. O termo remete ao conceito platônico de amor espiritual descrito por Platão, mas hoje indica uma relação sem atração sexual ou romântica, que pode ainda trazer benefícios jurídicos e práticos.
Assim, a experiência de Renee e April ilustra um território ainda pouco mapeado pela ciência, mas que ganha visibilidade à medida que mais pessoas questionam os limites tradicionais do casamento e da amizade.
Fonte: BBC News Brasil
