Pai conta como descobriu que filha se automutilava em desafios no Discord

“Ela podia ter morrido pela minha ignorância”. O relato, publicado pela BBC News Brasil, traz o depoimento de Paulo Zsa Zsa, pseudônimo adotado pelo pai que salvou a filha mais nova de um ciclo de automutilações induzidas por usuários da plataforma.

A notícia do suicídio de uma menina de 13 anos, transmitido ao vivo no Discord, chocou o país no mês passado. O caso despertou a atenção de Paulo, que percebeu que sua própria filha, de 12 anos, vivia um processo semelhante, embora ainda não tivesse sido exposto ao público.

O primeiro sinal apareceu durante um passeio de barco com a filha e amigos da família. Uma amiga notou pequenos cortes escondidos sob a blusa de proteção UV da menina e, mais tarde, ligou para o pai dizendo que a filha estava se cortando. Confrontado, Paulo entrou no quarto da filha, perguntou diretamente e, ao receber silêncio, pediu que mostrasse. A virilha estava toda mutilada, mas a menina não soube explicar o motivo.

Ele descreve a filha como introvertida, excluída dos grupos escolares e cada vez mais presa ao celular. Durante a pandemia de Covid‑19, a criança passou a jogar Minecraft, depois Roblox, e a consumir tutoriais no You Tube. Foi nesse ambiente que conheceu o Discord, por meio de um contato feito no Roblox.

Com o retorno às aulas presenciais, o isolamento da menina se intensificou. Os cortes migraram dos locais ocultos para pulsos e braços, e, em um episódio, ela ingeriu uma grande quantidade de remédios, alegando querer morrer. Foi levada ao hospital, iniciou acompanhamento psiquiátrico e psicológico, mas o padrão de automutilação continuou.

Na noite de um incidente, por volta das 23h, a filha bateu à porta do pai, vestindo apenas calcinha e sutiã, com cortes nos pulsos, virilha e sangue escorrendo. “Pai, eu surtei, me interna! Eu surtei”, disse ela. Paulo tirou fotos dos ferimentos, deu um banho e, ao preparar a ida ao hospital, a menina pediu para levar o celular. Ele recusou e entregou o aparelho a uma funcionária da família, chamada Dona Tereza, que ficou responsável por analisar o conteúdo.

Dona Tereza enviou capturas de tela que mostravam a menina em vídeos de automutilação, acompanhados de um “joinha” e mensagens como: “Eles me obrigaram a tatuar uma suástica no rosto, a me queimar com fósforos, a jogar perfume nas feridas, a beber água da privada”. Os registros revelaram ainda um termo chamado “LULZ”, gíria derivada de “LOL”, usada para descrever a diversão à custa do sofrimento alheio.

Paulo descobriu que a filha participava de uma “panela” – subgrupo fechado dentro de um servidor do Discord – onde um mediador lançava desafios como “Hoje vou fazer LULZ, quem quer ser a cobaia?”. Os adolescentes presentes incentivavam atos de autolesão, transformando a prática em um jogo coletivo sem monitoramento.

O pai conclui que o que antes parecia um problema interno da filha era, na verdade, uma dinâmica de pressão entre pares dentro da plataforma. “Toda segunda‑feira eu encontrava os lençóis manchados de sangue. Ela se cortava muito aos domingos”, relata, evidenciando a rotina de violência que ainda persiste.

Fonte: BBC News Brasil

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