Quando as pesquisas colocavam Alan Rick próximo dos 40% das intenções de voto e com larga vantagem sobre os adversários, os levantamentos eram tratados pelo senador como sinal de confiança popular e até como expressão de um “sentimento coletivo de mudança”.

Meses depois, com Mailza Assis reduzindo a diferença e aparecendo em empate técnico ou numericamente à frente em algumas sondagens, o discurso mudou. Alan passou a relativizar os números, afirmar que “a maior pesquisa é o povo” e, mais recentemente, sua coligação decidiu levar à Justiça Eleitoral questionamentos contra um levantamento da AtlasIntel.

A diferença de postura aparece nas próprias declarações do candidato.

Em março, uma pesquisa Delta mostrou Alan com 40,3% das intenções de voto, contra 20,7% de Mailza. Era uma vantagem de quase 20 pontos percentuais. Na ocasião, o senador comemorou publicamente o resultado.

“Recebo com gratidão o resultado de mais uma pesquisa que mostra nosso nome na frente em todos os cenários para o governo do Acre”, declarou.

Alan foi além. Disse que aqueles números representavam algo maior do que percentuais de intenção de voto.

“Mais do que números, isso revela um sentimento coletivo de mudança, de um povo que acredita e quer um Acre melhor”, afirmou.

A vantagem continuou confortável nos meses seguintes.

Em julho, a Delta voltou a colocar Alan na liderança, com 38,27%. Mailza aparecia com 19,48%, praticamente metade do percentual do senador.

Em agosto, porém, o cenário começou a mudar de forma mais clara.

Na pesquisa Delta daquele mês, Alan ainda liderava com 38,23%, mas Mailza havia subido para 25,15%. A diferença, que em março era de 19,58 pontos percentuais, caiu para 13,08 pontos.

Outros levantamentos mostraram uma disputa ainda mais apertada.

Foi nesse novo ambiente eleitoral que o discurso de Alan sobre as pesquisas ganhou outro tom.

Ao comentar, no fim de agosto, um levantamento em que aparecia numericamente à frente de Mailza, mas dentro da margem de erro, o candidato fez questão de estabelecer quais pesquisas considera merecedoras de credibilidade.

“Vai ter muita pesquisa. A gente precisa respeitar as pesquisas. Aquelas que são sérias, que têm metodologia séria, eu respeito todas”, afirmou.

Logo depois, relativizou o peso dos próprios levantamentos.

“Mas a maior pesquisa é o povo.”

E encerrou:

“O abraço do povo é a melhor pesquisa.”

A mudança não ficou apenas no discurso.

Nesta quarta-feira (2), a coligação Trabalho da Esperança, encabeçada por Alan Rick, ingressou com uma representação no Tribunal Regional Eleitoral do Acre contra a AtlasIntel.

O levantamento questionado mostrou Mailza com 35,2% das intenções de voto, Alan com 33,1% e Tião Bocalom com 18%. Mailza apareceu numericamente à frente, mas em situação de empate técnico com Alan no limite da margem de erro.

A representação apresentada pela coligação questiona aspectos relacionados aos requisitos legais do levantamento, incluindo metodologia de amostragem digital, abrangência da coleta no interior e regularidade do registro da pesquisa.

A partir dali, a mudança deixou de ser apenas retórica.

Quando Alan tinha 40,3% contra 20,7% de Mailza, o levantamento era recebido “com gratidão” e interpretado como demonstração de um “sentimento coletivo de mudança”.

Em julho, ainda com quase 19 pontos de vantagem, o cenário seguia confortável.

À medida que Mailza avançou e a diferença caiu, as pesquisas deixaram de ser apresentadas com o mesmo entusiasmo. Entraram no discurso as ressalvas sobre levantamentos “sérios”, a ideia de que “a maior pesquisa é o povo” e a afirmação de que “o abraço do povo é a melhor pesquisa”.

Agora, diante de um levantamento em que Mailza apareceu numericamente à frente, a discussão chegou à Justiça Eleitoral.

Alan não passou a dizer que todas as pesquisas são inválidas, e sua coligação tem direito de questionar judicialmente qualquer levantamento que considere irregular.

Mas a sequência deixa uma mudança política evidente: enquanto os números ofereciam uma liderança confortável, serviam como demonstração da confiança do eleitor. Quando passaram a mostrar uma disputa apertada, o candidato adotou uma postura muito mais crítica diante deles.

A pesquisa que antes revelava um “sentimento coletivo” agora passou a exigir ressalvas, questionamentos e até contestação judicial.

Os números mudaram. O discurso também.

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