Instituto guarda memória negra do Rio para que história não se repita

Taís Araújo e Zezé Motta conheceram o Instituto Pretos Novos (IPN), no Rio de Janeiro; iG Delas estava na visita
Divulgação/L’Oréal

Taís Araújo e Zezé Motta conheceram o Instituto Pretos Novos (IPN), no Rio de Janeiro; iG Delas estava na visita

Taís Araújo e Zezé Motta visitaram o Instituto Pretos Novos (IPN), no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro. A visita, da qual o iG Delas também participou na última semana, foi organizada pela L’Oréal Brasil como parte de um tour pela Pequena África, guiado pelo coletivo RioMemóriaAção. O trajeto pela zona portuária da cidade refaz os passos da população africana em diáspora no período colonial.

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A região foi a que mais recebeu pessoas escravizadas no mundo – foram cerca de 700 mil vítimas que desembarcaram no Cais do Valongo e foram vendidas como mercadoria.

Neste mês, a L’Oréal se tornou parceira do Circuito de Oficinas de História e Cultura Afro-brasileira do Instituto Pretos Novos. Criado em 2005, o IPN é um centro de pesquisa, estudo e preservação do patrimônio material e imaterial africano e afro-brasileiro. O instituto também oferece mais de 45 cursos lecionados por profissionais de diversas áreas, de soiólogos a jornalistas, para difundir o conhecimento histórico sobre a Pequena África. Há ainda uma programação online, disponível pelo link pretosnovos.com.br/educativo/oficinas .

O IPN só passou a existir devido ao passado escondido nos números 32 e 34 da Rua Pedro Ernesto. O endereço se tornou memorial quase 17 anos após a proprietária do imóvel, Merced Guimarães dos Anjos, que morava ali, encontrar ossadas no solo durante uma reforma da garagem, em 1996.

“Encontramos os ossos à tarde e ligamos para a polícia. De início, pensamos que isso era devido a uma chacina, ou que mataram uma família inteira, porque tinham crianças no meio. Até que um vizinho me disse que eu morava em cima do Cemitério dos Pretos Novos”, lembra Merced durante a visita. O Cemitério dos Pretos Novos funcionou entre 1759 e 1830 (com registros extraoficiais até 1870) e configura uma área de 700 metros quadrados, onde foram jogados entre 40 mil e 50 mil corpos de negros escravizados que não sobreviviam à travessia da África ao Brasil.

Outros corpos enterrados ali de forma degradante eram de pessoas jovens, encarados como mercadorias “com defeito” ou inutilizadas. Daí vem o nome pretos novos. A localização do cemitério na Gamboa marca o funcionamento do maior mercado de pessoas escravizadas da América Latina.

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O solo da garagem de Merced se tornou o sítio histórico e arqueológico do Cemitério dos Pretos Novos; e ela se tornou presidente do memorial. As ossadas são expostas no solo do IPN, preservadas por uma proteção de vidro para que sejam vistas pelos visitantes. A ossada mais conhecida do local é a de uma menina entre 18 e 20 anos, que foi nomeada pelos pesquisadores de Bakhita. Devido à decomposição, a passagem do tempo e a falta de registros, não será possível fazer a identificação dos corpos encontrados ali. A vala também demonstra a maneira como esses corpos eram enterrados, junto de lixo comum.

Com apoio do movimento negro, Merced tornou do espaço um memorial visitável para não apenas preservar a história e tirá-la do apagamento histórico, mas impedir que ela se repita. “Pensamos em fazer um cantinho na garagem para contar essa história. Bom, essa garagem nunca existiu. A garagem é esse lugar aqui”, diz.

Ossadas encontradas no terreno onde atualmente funciona o Instituto Pretos Novos (IPN)
ALEX FERRO

Ossadas encontradas no terreno onde atualmente funciona o Instituto Pretos Novos (IPN)

Merced conta que não existe nenhuma legislação que dê amparo a um memorial como o IPN. Com isso, a manutenção do espaço é feita com dificuldade. “Mas a gente não desiste, porque essa causa é muito importante. Eu acredito que dentro de uns 30 anos, quem sabe, a gente consegue ter uma igualdade e racial. Que as pessoas tenham mais respeito. Somos todos irmãos”, diz.

Ao se depararem com o espaço, Taís e Zezé se emocionaram e fizeram falas sobre a importância da preservação desse período histórico, por mais doloroso que seja visitá-lo. “É desconfortável estar nesse lugar mas, ao mesmo tempo, é realmente importante. Olhar [para as ossadas] é uma dor imensa que está nos nossos corpos, corre no nosso sangue”, começa Taís.

Comovida, ela afirma que, ao observar os ossos, recitou em silêncio o mantra ho’oponopono, um ritual que ela faz quando se sente muito magoada. Na ocasião, ela fez isso dez vezes: “É uma oração bem grande, mas pode ser resumida em quatro frases: sinto muito, me perdoe, eu te amo, sou grato. Fiz isso para fortalecer meu compromisso com essas pessoas que morreram para que eu estivesse aqui. Enquanto eu estiver viva, vou trabalhar para mudar essa história”, diz a atriz.

Ela conta que, durante o choro, pensou no que poderia fazer pelas pessoas pretas que foram vítimas, das quais, ela afirma, a existência dela é fruto. “Me veio uma força gigante que reafirma o meu trabalho, que pode provocar mudanças. Às vezes a gente trabalha e fala ‘isso não vai dar em nada’, mas quando vejo tudo que passou, os passos que já foram dados, reafirmo o desejo e meu compromisso enquanto artista e cidadã. Saio daqui muito sensibilizada, mas muito forte”.

Zezé também compartilhou algumas palavras: “Essa história é triste, mas tem que estar viva. Tem que ser repassada para os nossos descendentes. Eles têm direito de saber. Precisam saber continuar a luta no dia em que não estivermos mais aquir”, diz a atriz e cantora.

Em seguida, ela entoou a canção “Senhora Liberdade” e foi acompanhada dos presentes: “Abre as asas sobre mim, oh, Senhora liberdade. Eu fui condenado sem merecimento por um sentimento, por uma paixão, violenta emoção; pois amar foi meu delito mas foi um sonho tão bonito. Hoje estou no fim, Senhora liberdade, Abre as asas sobre mim”, cantou.

“Eu disse que o dia que eu viesse aqui, eu ia chorar muito”, finaliza Zezé, em lágrimas.

Contra o apagamento histórico e o racismo estrutural

O historiador Alcino Amaral afirma que ir ao IPN é um obstáculo para pessoas pretas não apenas pela forma como o passado atravessa o presente, mas por entender que o processo de “violência, animalização e objetificação desses corpos que aqui foram enterrados continua em desenvolvimento na nossa sociedade”.

“Sem isso, a gente não consegue entender e compreender a complexidade desse processo. É justamente na normalização da morte desses corpos que se produz a violência cotidiana nas periferias da cidade do Rio de Janeiro, contra os corpos e a juventude negra. É preciso reconhecer essa história e ter muita responsabilidade, seja preto, branco, indígena ou amarelo. É uma responsabilidade cidadã”, afirma.

Alcino é um dos nomes à frente do coletivo RioMemóriaAção, que organiza o tour completo pela Pequena África. Além de passar pelo IPN, o trajeto de cerca de três horas de duração inclui espaços como o Cais do Valongo, o porto por onde desembarcava a população africana sequestrada que seria vendida, e a Pedra do Sal, onde se situa a Comunidade Remanescentes de Quilombos da Pedra do Sal; e um dos principais pontos que representaram acolhimento para escravizados libertos.

O RioMemóriaAção surgiu em 2019 como uma movimentação para levar as lideranças do IPN e da Casa da Tia Ciata, memorial no Rio que preserva a história da matriarca do samba, a uma palestra na Universidade Negra dos Estados Unidos sobre a diáspora negra. “Essas lideranças foram convidadas, mas não havia nenhum tipo de incentivo público para que elas conseguissem fazer essa viagem”, lembra Alcino ao iG Delas.

Para sensibilizar quanto à importância de se abordar a diáspora africana em todo o mundo, o Rio Memória Ação realizou uma aula pública coletiva que mobilizou quase 100 pessoas para que conhecessem a história da Pequena África e fizessem doações. Isso possibilitou que essas lideranças fizessem a viagem. “A partir daí, a gente nunca mais parou de mobilizar ações em prol dessa história”, diz.

Além de Taís e Zezé, estão entre as presenças ilustres que já participaram do tour embaixadores da Gana e Tobago, o que Alcino comemora: “Isso gerou um diálogo de intercâmbio dentro da diáspora negra. Foi muito importante”.

O historiador afirma que a reação das pessoas que fazem o tour pela Pequena África é de surpresa. “Muitas pessoas passam por essas ruas, às vezes todos os dias, e não têm noção da importância do lugar, não conhecem a história. Além da surpresa, vemos muita animação, porque contamos essa história com uma narrativa leve. As pessoas se sentem participantes e pertencentes daquele momento”.

Fonte: IG Mulher

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