No boteco raiz, a regra é simples e universal: cerveja sempre gelada, petisco de origem duvidosa, mas de sabor inquestionável. Aqui, a simplicidade não é uma escolha, é o estilo de vida.
Nas mesas, cabelos brancos se misturam a risadas juvenis, enquanto histórias de vida são contadas com o peso de décadas e a leveza de quem sabe rir de si mesmo. Conversas acaloradas sobre futebol e política cruzam o ar, e, entre um gole e outro, até aquela fofoca sobre a vida de algum casal vem à tona – porque no boteco, o humor e a humanidade andam lado a lado.
A trilha sonora é sempre um reflexo da alma coletiva. Na Jukebox, Homem Não Chora, na voz de Silvano Sales, ecoa com uma melancolia que contrasta com o clima descontraído. É quase como se a música servisse de pano de fundo para os desabafos do cotidiano, um lembrete de que até na dureza da vida há espaço para a emoção.
Este é o território da Skina da Amizade, onde ninguém é estranho por muito tempo. Mesmo quem chega sozinho, invariavelmente encontra companhia. Aqui, você pode ser indagado por um desconhecido com um casual “O que você acha?”, ou receber um sorriso cúmplice após uma piada que parece ter saído direto de um recreio da quinta série.
Não importa quem você é, o que faz ou o que tem. Classe social, saldo bancário, títulos e status perdem todo o sentido nesse espaço democrático. No boteco, todos são iguais, todos têm voz, todos têm história.
Cada canto carrega memórias e cada mesa já foi palco de comemorações, reconciliações e despedidas. Entre um brinde e outro, amizades nascem, desentendimentos se resolvem e, às vezes, até amores improváveis encontram seu início.
A noite avança, e o tempo parece desacelerar. A conversa flui sem pressa, e os minutos são contados em goles. Quando o fim inevitável se aproxima, surge a frase que é quase um ritual, um encerramento poético:
“Garçom, a saideira e a conta!”
Porque, no boteco raiz, o final de uma noite é apenas o início de uma nova história a ser contada.
Saul Galdino