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Bandido da Luz Vermelha: de vítima de estupro a estuprador

Ele nasceu João Acácio Pereira da Costa, mas acabou conhecido como o Bandido da Luz Vermelha. Sua história virou filme. Com direção de Rogério Sganzerla, e inspirado nos crimes de João Acácio, o longa é de 1968.   

Luz Vermelha foi assassinado em 1998, depois de passar 30 anos na prisão. Fora condenado por quatro assassinatos, sete tentativas de homicídio e 77 assaltos. A pena era de 351 anos, 9 meses e três dias de prisão.

Ele estava em liberdade há apenas quatro meses e 20 dias quando foi morto com um tiro de espingarda, no dia 5 de janeiro de 1998.

Antes de tratar desse crime, que encerrou a trajetória de João Acácio, quero falar de sua infância. Talvez ela explique o porquê de sua mente perturbada.

Acácio após prisão: condenado a 351 anos, cumpriu 30/Foto: reprodução

João Acácio nasceu em Joinville, Santa Catarina. Tendo ficado órfão aos quatro anos, ele e o irmão mais velho, Joaquim Tavares Pereira, passaram a ser criados por um tio. Preso em 1967, em Curitiba (PR), contou que ele e o irmão eram obrigados a trabalhar em troca de comida. Relatou ainda que ambos foram torturados pelo parente, que negou as acusações.

Ainda garoto, João Acácio foi estuprado por meninos mais velhos. E essas agressões parecem ter moldado seus piores instintos.

Adolescente, ele se mudou para o estado de São Paulo, fugindo da polícia que o procurava pelos furtos que praticou no seu estado natal. Fixou residência em Santos, onde se dizia filho de fazendeiros. Ali levava uma vida pacata – e dupla. Furtava na capital paulista e regressava ao litoral, onde se passava por bom moço.

Suas ações também se estenderam ao Rio de Janeiro. Ia para o Rio de ônibus e voltava de carro. Chegou a roubar 50 veículos, conforme afirmou jornalista e escritor Gonçalo Junior, autor do livro “Famigerado! — A História de Luz Vermelha, o bandido que aterrorizou São Paulo”.

Seus assaltos eram praticados quatro dias por semana, das 2 às 4 horas da madrugada. Foram mais de cinco anos de atividade, que resultaram em dezenas de assaltos, estupros e homicídios.

No filme “O Bandido da Luz Vermelha”, João Acácio é interpretado pelo ator Paulo Villaça

Tinha preferência por mansões, nas quais sempre entrava nas últimas horas da madrugada. Cortava a energia do imóvel e, usando um lenço para cobrir o rosto, entrava carregando uma lanterna com uma lente vermelha. Daí o apelido que ganhou na imprensa.

Vaidoso, Luz Vermelha se vestia sempre com cores vivas, chapéus extravagantes e lenços de caubói cobrindo o rosto. Gostava também de usar perucas.

O dinheiro obtido nos assaltos era gasto com mulheres e boates. A polícia levaria seis anos para identificá-lo, após ele deixar suas impressões digitais na janela de uma mansão.  

Quando foi preso, em Curitiba, João Acácio vivia sob a identidade falsa de Roberto da Silva.

No interrogatório, ele confessou quatro homicídios: o primeiro do estudante Walter Bedran, de 19 anos (em 1966), com um tiro na cabeça; dez dias depois matou o operário José Enéas da Costa, de 23 anos, durante uma briga; o terceiro assassinato  (1967), ocorreu durante uma troca de tiros com o industrial Jean von Christian Szaraspatack, que reagiu a uma tentativa de roubo; e em 6 de julho de 1967 matou o vigia José Fortunato, que tentou impedir sua entrada na mansão em que fazia guarita, no bairro do Ipiranga (SP).

Cometia os crimes vestido com a “cor do diabo” (como ele próprio se referia ao vermelho). Embora nunca tenha sido acusado oficialmente, era suspeito de ter estuprado mais de cem mulheres.

Foi desdentado, envelhecido e com distúrbios psiquiátricos que João Acácio deixou a prisão, em 1997. Tinha então 54 anos de idade.

Luz Vermelha deixa a prisão em 1997, fato noticiado pela Folha de S.Paulo

Acolhido por um pescador de Joinville, sua cidade natal, meteu-se em uma briga com o irmão daquele, após ser acusado de tentar abusar-lhe da esposa. Ameaçou o oponente com uma faca e foi morto com um tiro de espingarda.

Conforme o jornal Notícias Populares, o atirador alegou ter efetuado o disparo para salvar a vida do irmão.

Em novembro de 2004, o pescador foi absolvido pela Justiça de Joinville, que confirmou a versão de legítima defesa.

*Amaro Alves foi repórter de polícia até se aposentar, em 2009; vive atualmente em Belém (PA), de onde escreve com exclusividade para oacreagora.com

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