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Entrevista: A crise ideológica dos partidos e o PSL de Pedro Valério

“Esse governo até hoje não disse a que veio. É confuso, age no improviso e tem como sustentação o populismo do governador. Não tem nenhum programa que possa alavancar a produção, caminho único para o desenvolvimento”

Já na década de 80, o antropólogo e escritor Carlos Castañeda disse que as expressões direita e esquerda haviam perdido os seus conteúdos semânticos. Fazendo um recorte na história, e exemplificando com o Brasil pós-redemocratização, a confirmação disso veio com a coligação do PSDB com o então PFL (hoje DEM), aliança que levou FHC à presidência da República, não obstante em fazer os seculares escritores positivistas, Augusto Comte e Max Weber, se revirarem em seus túmulos.

No governo subsequente, o maior partido de esquerda da América do Sul, o PT, aliançou-se e governou com os principais partidos de direita, reduzindo o marxismo-leninismo, com a importante contribuição de Antônio Gramsci, a uma mera peça de retórica.

A incoerência e o fisiologismo passaram a dar a tônica na política brasileira, sepultando os discursos ideológicos e as práticas republicanas.

Pedro Valério: do velho MDB ao novo PSL

A decadência do establishment político fez emergir alguns novos partidos de direita, destacadamente o PSL e o Novo. Este último, apesar de sua concepção essencialmente liberal, ainda não se consolidou como partido forte e organizado. O PSL, por sua vez, embora há décadas possua um programa de direita, só ficou em evidência com o advento do bolsonarismo.

Fundado há 15 anos no Acre, o PSL era um partido meramente cartorial, uma legenda de aluguel da Frente Popular do Acre (FPA). Apenas quando disputou o governo estadual, em 2018, passou a ter vida orgânica e militância e ficou apto para participar de eleições em praticamente todos os municípios acreanos. É uma das poucas legendas que não fazem da política partidária um balcão de negócios.

À frente da agremiação, está o radialista e produtor rural Pedro Valério de Araújo, de 54 anos. Oriundo do remoto seringal Ceci, no município de Tarauacá, e caçula de uma família de 13 irmãos, nascido de um parto de extremo risco, já que sua mãe tinha 48 anos, foi fisgado com um anzol no couro cabeludo e puxado para vir ao mundo. A técnica utilizada pelas parteiras da localidade, à época, apesar de intrépida, garantiu o nascimento dele e de mais dois irmãos. “A minha irmã (parteira) e as cicatrizes idênticas nas cabeças de mais dois irmãos meus comprovam”, brincou o dirigente.

Em sua residência, um bucólico sítio na estrada do Mutum, em Rio Branco, ele recebeu a nossa reportagem. Pedro falou sobre a infância pobre nos seringais, a vontade de estudar, a trajetória e, principalmente, a segunda paixão, a política. A primeira é a família. Vejam os principais trechos:

O Acre Agora – Como começou o seu envolvimento com a política?

Pedro Valério – A minha vida inteira foi no MDB. O meu pai era MDB. Naquele momento, tinha pouca gente em Tarauacá que não era MDB. Já morando aqui na capital, militei no partido até a eleição do ex-prefeito Mauri Sérgio, época em que eu era o primeiro vice-presidente do diretório municipal de Rio Branco. Por discordar de alguns procedimentos, preferi me desligar da política partidária. Continuei assim até o início de 2018, quando fui convidado pelo meu amigo Ulysses Araújo, então candidato a governador, para presidir o PSL.

Valério com os senadores Davi Alcolumbre e Marcio Bittar

O Acre Agora O que trouxe o senhor de volta à política partidária?

Pedro Valério – O principal motivo foi que tínhamos um candidato a Presidente honesto, patriota e com Deus no coração. Bolsonaro fez renascer a esperança de que o Brasil poderia mudar para melhor. Por sua vez, o PSL tem um programa liberal-conservador em defesa da vida, da família, da produção, das instituições democráticas, do combate à corrupção e do livre mercado. A única nação rica sem ser liberal é a China. Porém, como sabemos, é um país rico com um povo pobre, oprimido e praticamente sem direitos, sejam eles humanos, sociais ou trabalhistas. A prova é que a mão-de-obra chinesa é uma das mais barata do planeta. 

“O PSL tem um programa e argumentos sólidos para discutir com a sociedade”

O Acre AgoraComo está sendo essa nova experiência como dirigente?

Pedro Valério – Eu já estou no sétimo mandato consecutivo, ou seja, vou para dois anos e meio à frente do partido. São mandatos de apenas seis meses e de livre nomeação pela Comissão Executiva Nacional, por se tratar de Comissão Provisória. Considero esse período bastante exitoso, pois, até março de 2018, o PSL era apenas um puxadinho do PT. Por incrível que pareça, um partido liberal-conservador, incorporado a um programa socialista. Um paradoxo terrível. Quando assumi, tínhamos 87 filiados e hoje já alcançamos a marca de dois mil, além de termos o vice-governador como filiado ilustre. O PSL não tinha vida orgânica, militância e nenhum diretório adimplente, começando pelo estadual. Muito em breve estaremos presentes em todos os municípios. Nas últimas eleições, disputamos onze prefeituras, sendo seis na cabeça de chapa e cinco como vice. Fizemos um vereador na Capital e disputamos, com chances reais, as prefeituras de Cruzeiro do Sul e Epitaciolândia. Revelamos, ainda, uma das maiores expressões políticas dos últimos tempos, o Sargento Adonis, nome que liderou todas as pesquisas até 15 dias antes das eleições passadas. Detalhe: contra as duas maiores oligarquias e feudos políticos e familiares do Vale do Juruá. Foi um avanço gigantesco.

Com o presidente nacional da sigla, Luciano Bivar

O Acre AgoraPor que o PSL acreano se coloca como uma alternativa e não tem medo de encarar os eleitores?

Pedro Valério – Por um motivo muito óbvio: nós defendemos a vida, a família, a propriedade, a livre-iniciativa, o empreendedorismo, a economia de mercado, um estado mínimo e eficiente, a meritocracia, as instituições democráticas, as forças armadas e a liberdade, sentido único da vida. Um partido com esse programa tem argumentos sólidos pra discutir com a sociedade.

“As áreas de proteção ambiental precisam ser revistas, estabelecendo-se novos critérios, uma vez que, a maioria delas, foram embasadas em laudos fraudulentos, ou seja, com interesses lesa-pátria”

O Acre AgoraComo o senhor avalia a administração do governador Gladson Cameli? 

Pedro Valério – Esse governo até hoje não disse a que veio. É confuso, age no improviso e tem como sustentação a popularidade do governador. Não tem nenhum programa que possa alavancar a produção, caminho único para o desenvolvimento.

Houve alguns avanços, principalmente no campo da liberdade, vez que, durante vinte anos, os desgovernos petistas amordaçavam a imprensa, órgãos, instituições e demais poderes, perseguindo os contrários de forma implacável. Adversário político era tratado como inimigo capital e tinha que ser exterminado. Infelizmente no governo atual o setor produtivo ainda continua engessado e subexplorado, ou seja, oprimido da mesma forma como foi nas gestões anteriores. Ao invés de se alinhar ao programa liberal do governo Bolsonaro, nosso governador prefere flertar com seu rival político, o João Dória. Os principais conselheiros políticos dele trazem nos rostos as insígnias do PT e PC do B.

O Acre AgoraO que o senhor espera ou como avalia esse início de gestão do prefeito Bocalom?

Pedro Valério – É muito difícil avaliar uma administração com pouco mais de um mês. Vislumbro que para fazer uma boa administração não pode se vincular a candidaturas majoritárias para 2022. A neutralidade é imprescindível para trazer a bancada pro radar de sua gestão. Se pender para um lado, vai desagradar os demais e isso não será bom para quem tem a obrigação de governar bem.

“A vacinação em massa, que devia ser o norte de todos os governos, é desprezada por interesses eleitoreiros. Isso é um escárnio”

Com o Sargento Adonis (de camiseta branca): nova liderança política do Juruá

O Acre AgoraComo o senhor avalia o governo do presidente Bolsonaro?

Pedro Valério – O governo do Bolsonaro é bastante propositivo, embora ele governe contra tudo e todos (congresso, governadores, STF e imprensa). As polêmicas em torno dele têm origem em frases de efeito, soltas ou por andar sem máscara. Não existe um único indício de corrupção no governo, que estava saneando as contas do país, até a chegada da pandemia que quebrou a economia do planeta. Amparou os brasileiros com o auxílio emergencial e com obras estruturantes, com destaque para as estradas e pontes. Tenho esperança que, após o controle da pandemia, tenhamos o imediato retorno do crescimento econômico, esse sim, capaz de reduzir o desemprego, a violência e outros mazelas consequentes da crise econômica.

Por outro lado, faço uma crítica ao governo Bolsonaro e demais governos estaduais quanto à falta de investimento na produção de vacinas, essencialmente na produção de uma genuinamente brasileira. A vacinação em massa é a única forma de erradicar a pandemia e recuperar a economia brasileira. Infelizmente, nossos governantes ainda não acordaram pra essa dura realidade. Enquanto Bolsonaro e Dória travam uma briga política em torno das vacinas, visando a Presidência da República, milhares de brasileiros morrem por consequência do coronavírus. A vacinação em massa, que devia ser o norte de todos os governos, é desprezada por interesses eleitorais. Isso é um escárnio.

Com o ex-governador e ex-senador Nabor Júnior

O Acre AgoraO que o senhor tem a comentar sobre as eleições do próximo ano?

Pedro Valério – Nas próximas eleições, os acreanos devem prestar atenção em quem votar para senador e deputado federal, principalmente optando por aqueles com um pensamento liberal, de revisão do nosso perverso Código Florestal e leis afins, e comprometidos com o irrestrito apoio à produção. Com essa legislação ambiental, é humanamente impossível desenvolver a Amazônia. Isso precisa ser mudado. As áreas de proteção ambiental precisam ser revistas, estabelecendo-se novos critérios, uma vez que, em muitas delas, foram firmados interesses lesa-pátria. Não podemos aceitar que os gringos venham nos dizer o que é melhor e o mais apropriado para nós. Hoje, entre todos os congressistas, o senador Marcio Bittar é o porta-voz dessas propostas. É o único da bancada acreana que se levanta contra tudo isso. Quem deve mandar no Acre são os acreanos, quem deve mandar na Amazônia são os amazônidas e quem manda no Brasil são os brasileiros.

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