Listas de boicote e demissões por posição política entram na mira de órgãos no Acre

Nesta quinta‑feira (29), representantes do Ministério Público do Estado do Acre (MPAC), do Ministério Público do Trabalho (MPT), da Superintendência Regional do Trabalho e da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Acre (OAB/AC) reuniram‑se para articular ações conjuntas contra a circulação de listas de boicote a empresas e profissionais e contra manifestações que incentivam a demissão de trabalhadores por escolhas políticas.

O encontro, conduzido pela corregedora‑geral do MPAC, Patrícia de Amorim Rêgo, focou na prevenção e no enfrentamento ao assédio eleitoral e a práticas discriminatórias motivadas por convicções políticas no período pós‑eleitoral, analisando possíveis repercussões nas esferas trabalhista, cível, criminal, consumerista e eleitoral.

“O Ministério Público é guardião da democracia e da paz social. Nós não podemos ficar calados e omissos diante dessa situação. Precisamos agir com responsabilidade e de forma coordenada”, afirmou Patrícia de Amorim Rêgo.

A procuradora do Trabalho, Marielle Rissane Guerra, ressaltou que a proteção ao trabalhador permanece mesmo após o encerramento das eleições. “A eleição acabou; a proteção do trabalhador não. Ninguém pode perder o emprego, deixar de ser contratado ou ser perseguido pelo voto que deu, seja eleitor de quem for”, declarou.

Segundo a procuradora, a dispensa discriminatória pode acarretar reintegração ou pagamento em dobro da remuneração do período de afastamento, além de indenização por dano moral. Ela orientou que eventuais vítimas guardem provas – capturas de tela, links, mensagens e áudios – para facilitar a apuração.

O superintendente regional do Trabalho, Leonardo Lani de Abreu, abordou a prática de elaborar listas que expõem pessoas e empresas por suas posições político‑partidárias. Segundo o relato, essa coisa de fazer lista de empresas, lista de pessoas, tentar asfixiá-las economicamente, é uma prática típica de períodos autoritários. […] A gente vive num Estado de Direito, e é isso que estamos defendendo enquanto instituições.

O promotor de Justiça Dayan Albuquerque, responsável pela área eleitoral e pela 1ª Promotoria Especializada de Defesa do Consumidor, afirmou que a atuação institucional continuará após o fim das eleições.

“Passadas as eleições, nós vamos continuar, agora com uma outra etapa, a etapa de coibir práticas abusivas. É lamentável essa situação. Até os direitos e garantias individuais, que são cláusulas pétreas, têm limites, e o limite da liberdade de expressão é quando começa a atingir os direitos humanos”, disse.

A promotora eleitoral Nelma Araújo Melo, da 9ª Zona Eleitoral, destacou que eventuais ilícitos relacionados ao processo democrático serão analisados conforme as atribuições do MPAC.

“Enquanto promotora eleitoral, acompanhamos todo o pleito para que a eleição ocorresse da melhor forma, como um processo limpo e sem abusos. Neste segundo momento, o que configurar como ilícito eleitoral e estiver entre as nossas atribuições terá a atenção do MPAC, que está pronto para atuar e tomar as medidas necessárias, inclusive na esfera criminal”, afirmou.

Representando a Comissão de Combate ao Assédio Moral e Sexual da OAB/AC, João Victor Silva reforçou o princípio constitucional: “O direito ao voto é secreto. Ninguém tem o direito de discriminar qualquer pessoa, qualquer empregado, qualquer empresário, pela sua convicção política. A Constituição é clara nesse sentido”.

Como parte das medidas adotadas, a Corregedoria‑geral do MPAC publicou a Recomendação nº 02/2026, que orienta a análise de situações como listas de estabelecimentos, incentivos à demissão ou à não contratação e recusas de atendimento por alinhamento ideológico. O Centro de Apoio Operacional Eleitoral (Caop Eleitoral) elaborou a Orientação Técnica nº 04/2026, abordando repercussões jurídicas de ameaças de demissão, dispensas discriminatórias e boicotes comerciais, e destacando a necessidade de preservação de dados e provas. As denúncias podem ser feitas à Ouvidoria‑Geral do MPAC pelo telefone (68) 3212‑2113, WhatsApp (68) 99901‑6238 ou central gratuita 0800 970 2078, bem como pelos canais do MPT e do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

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