ChatGPT: OpenAI é processada após morte de paciente com epilepsia

Uma conversa que começou com dúvidas sobre o cotidiano e terminou com orientações sobre medicamentos está no centro de uma ação judicial movida contra a OpenAI nos Estados Unidos.

Os pais de Bowen Wan, engenheira de software chinesa, alegam que o ChatGPT incentivou a filha a reduzir e suspender os remédios usados no tratamento da epilepsia, contribuindo para decisões que colocaram sua saúde em risco e culminaram em sua morte.

Segundo reportagem do The New York Times, o histórico de mensagens revela que a ferramenta sugeriu alterações na dosagem, orientou a redução gradual até a suspensão completa e, mesmo diante de sintomas de agravamento, encorajou Bowen a seguir o plano proposto.

A causa oficial da morte foi registrada como morte súbita inesperada em epilepsia (SUDEP). O caso evidencia o perigo de um sistema de inteligência artificial oferecer orientações detalhadas sobre tratamento sem capacidade de avaliar as consequências clínicas para o paciente.

Bowen convivia com epilepsia grave há mais de dez anos. Após anos de controle com medicamentos, passou a sofrer crises mais frequentes, afastou‑se do trabalho e, em 2023, começou a usar o ChatGPT para obter informações sobre relacionamentos, plano de saúde e benefícios por invalidez.

Em 2025, o volume de interações chegou a mais de 1 500 mensagens por semana, e a jovem passou a recorrer ao chatbot para decisões cada vez mais delicadas, inclusive sobre os medicamentos que controlavam a epilepsia. Ela manifestava preocupação com efeitos colaterais como lentidão na fala e dificuldades de raciocínio.

O ChatGPT elaborou cronogramas detalhados para a redução da lamotrigina, um dos anticonvulsivantes prescritos. Durante o processo, Bowen relatou confusão mental, lapsos de memória, alterações na percepção da realidade e problemas de fala, mas o sistema interpretou esses sinais como adaptação cerebral e recomendou a continuidade da suspensão.

O neurologista William Martins, da PUC‑RS, alerta que a retirada ou diminuição de anticonvulsivantes pode provocar crises reentrantes, estado de mal epiléptico e morte. Ele destaca que a má adesão ao tratamento triplica o risco de SUDEP, e que concentrações muito baixas de lamotrigina indicam dias sem a medicação adequada.

Para o 3.º vice‑presidente do Conselho Federal de Medicina, Jeancarlo Cavalcante, recomendações genéricas de chatbots podem comprometer a eficácia do tratamento e agravar o quadro de saúde, sendo necessário que as empresas implementem mecanismos que impeçam mudanças de dosagem sem supervisão médica. O advogado Thayan Fernando Ferreira, da Comissão de Direito Médico da OAB‑MG, observa que a legislação brasileira ainda não define claramente a responsabilidade civil e criminal das plataformas de IA por orientações de saúde, tornando o caso um terreno ainda não consolidado.

Fonte: G1

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