Qual o futuro do bolsonarismo após Flávio Bolsonaro ir para os EUA?

A saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil para os Estados Unidos, depois de ter sido derrotado na eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abre dúvidas sobre o futuro do bolsonarismo.

Na quarta‑feira (28), o candidato derrotado publicou, em sua conta na rede X, a mensagem de que seria “o verdadeiro presidente do Brasil” e alegou fraude eleitoral sem apresentar provas. Em seguida, apagou o post e divulgou outro texto quase idêntico, desta vez se autodenominando “o líder do Brasil”. No mesmo pronunciamento, afirmou que conduzirá a oposição a Lula a partir dos Estados Unidos, prometendo “mobilizar o apoio popular por meios pacíficos e legítimos” para impedir a consolidação de um “regime ditatorial”.

Analistas políticos demonstram ceticismo quanto à capacidade de Flávio Bolsonaro de liderar a oposição a partir do exterior, sobretudo ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro (PL), que reside nos EUA desde fevereiro de 2025.

O resultado da eleição foi confirmado pelo Tribunal Superior Eleitoral, presidido pelo ministro Kassio Nunes Marques, e reconhecido pelos principais partidos, inclusive o PL, que aceitaram a vitória de Lula.

Para o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas, a atuação dos irmãos nos Estados Unidos não conta com apoio da maioria da sociedade. Ele recorda que a medida de retaliação econômica da Casa Branca contra o Brasil, conhecida como “tarifaço”, foi mal recebida pela população.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não se pronunciou sobre a autodeclaração de Flávio como “verdadeiro presidente”. Já o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reconheceu a “revolta” do senador, mas reforçou que o caminho é respeitar o resultado das urnas e construir uma oposição forte dentro das instituições democráticas.

Flávio Bolsonaro deixou o país após o ministro do STF Alexandre de Moraes determinar a apreensão de seu passaporte, atendendo a um pedido da Polícia Federal em investigação de suposta lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o empresário Willer Tomaz. O senador nega as acusações e acusa perseguição política para silenciar críticos do que chama de “regime de exceção”.

Especialistas dividem opiniões sobre o futuro do bolsonarismo após as recentes derrotas da família: duas perdas presidenciais consecutivas, a prisão de Jair Bolsonaro (PL) e a saída de seus filhos com maior projeção política. A ex‑primeira‑dama Michele Bolsonaro (PL) deve assumir, em 2027, seu primeiro mandato eletivo como senadora pelo Distrito Federal, enquanto Carlos Bolsonaro (PL) e Jair Renan (PL) deverão ingressar no Congresso Nacional no próximo ano, como senador e deputado federal, respectivamente, por Santa Catarina.

Outros nomes são apontados como possíveis lideranças, como Tarcísio de Freitas, que tem autonomia da família e acabou de ser reeleito governador do estado mais rico do país. Sergio Moro (PL), eleito governador do Paraná. Cleitinho Azevedo (Republicanos), governador eleito de Minas Gerais. E o deputado reeleito Nikolas Ferreira (PL‑MG), ainda que este ainda não tenha experiência para disputar a presidência.

A cientista política Daniela Costanzo, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), descreve o bolsonarismo como um “partido digital” que mantém uma base sólida nas redes sociais, independentemente da estrutura tradicional de um partido. Segundo ela, a derrota presidencial é significativa, mas o movimento continuará forte porque já possui essa organização digital.

Costanzo afirma que a liderança de Flávio, ainda em construção, ficará enfraquecida, abrindo espaço para outras figuras. Ela destaca a força de Michelle Bolsonaro, que tem vida própria e não depende exclusivamente da família, e menciona que o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, se encontrou com a futura senadora para discutir o futuro do partido.

Entretanto, Costanzo não vê potencial em Carlos e Jair Renan para assumir a liderança do campo bolsonarista. Marco Antonio Carvalho Teixeira, da FGV, compartilha da mesma visão, apontando que ambos têm menos “estofo” político que outras lideranças e que a ausência de Flávio pode gerar uma lacuna que partidos de direita buscarão preencher com novos nomes.

O professor do Instituto Federal da Bahia, Fábio Baldaia, autor do livro “Bolsonarismo e o Brasil Profundo”, sustenta que o movimento permanecerá forte mesmo após a saída de Flávio. Ele argumenta que o bolsonarismo aglutinou sentimentos e práticas já existentes no país, como a relação entre política e religião, concepções de moralidade pública e a interação entre Estado e mercado, o que garante sua continuidade.

Fonte: Terra Brasil

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